7 dias sem falar – Meu curso de meditação na Tailândia

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Meditar não estava nos meus planos de viagem. Lembro vagamente de, em algum momento, nos primeiros meses de viagem, ter uma conversa onde me falaram sobre retiros nos quais as pessoas não falam absolutamente nada por dias. Eu imaginei que se alguém não era doido na entrada pelo menos seria quando saísse. Um ano depois eu mesmo entraria numa fria dessas.

 

Meditando em Doi Suthep
Meditando no quarto em Doi Suthep.

 

Enquanto estava na Ásia conheci várias pessoas que foram para um retiro com o objetivo de meditar, também li mais sobre isso na internet e, invariavelmente, os relatos eram extremamente positivos. Até mesmo quem desistiu no meio do caminho recomendou tentar.

Eu nunca meditei e meus conhecimentos sobre o assunto eram muito superficiais. O que eu sabia é que era benéfico e que não era necessária nenhuma experiência prévia para participar de um desses retiros. Quando estava em Mianmar, viajando há mais de um ano e em vias de vir para o Brasil, decidi que era a hora de experimentar.

 

Um dos altares no templo de Doi Suthep.
Um dos altares no templo de Doi Suthep.

 

Pesquisando cheguei até a página de um centro de meditação que ensina uma técnica chamada Vipassana. O curso é grátis e você faz uma doação no final dentro das suas condições, sem pressão nenhuma. Já as restrições assustam um pouco.

Durante os dias no centro você não deve:

  • Utilizar seu telefone ou qualquer outro eletrônico;
  • falar;
  • ler, escrever ou desenhar;
  • ouvir música;
  • se exercitar;
  • comer depois das 12 horas (carne nunca);
  • fumar ou consumir bebidas alcoólicas;
  • matar qualquer coisa, inclusive mosquitos e formigas.

 

Todos nós estamos tão acostumados a estarmos ativos o tempo todo que quando a bateria do celular acaba fica aquela sensação de que você perdeu um braço (tá! Dei uma exagerada.). Não comer do meio-dia até o dia seguinte parecia estranho também, mas achei que se alguém tivesse morrido disso eles não estariam oferecendo o curso, então me inscrevi para o de 7 dias com um misto de curiosidade e frio na barriga.

 

Naga Stairs: O acesso ao templo
Naga Stairs: O acesso ao templo.

 

O centro de meditação fica no templo de Doi Suthep, um dos mais famosos da Tailândia situado em uma montanha a quinze quilomêtros de Chiang Mai. O e-mail com as instruções me dizia para estar lá entre 12 e 14 horas e, chegando no meio do dia, o primeiro desafio foi subir a escadaria de acesso ao templo com tudo que eu tinha. Para contextualizar, fazia 41 graus em Chiang Mai.

Cheguei suando na recepção do centro e vi várias pessoas vestindo branco sentadas à esquerda da entrada. Tenho que confessar que uma das minhas dúvidas era “Que tipo de maluco, além de mim, vem para um lugar desses?”, mas nos dois segundos que olhei todos pareciam bem normais.

 

Acesso aos quartos em um dos prédios
Acesso aos quartos em um dos prédios.

 

Recebi as chaves e as instruções de ir até o meu quarto e voltar às 14:30, todo de branco, para receber as primeiras lições. A exigência das roupas é, como todas a outras, para que não existam distrações e que o foco seja só você mesmo. Voltei no horário marcado, vestido adequadamente para um réveillon, e encontrei um monge me esperando sorridente. Em alguns minutos ele me ensinou as técnicas básicas para meditar sentado e andando. Até algumas semanas antes eu nem sabia que era possível meditar e caminhar simultaneamente, mas o monge manja, né?! Ele me disse para alternar entre os dois modos, 15 minutos em cada.

Menos de duas horas depois era o momento da cerimônia de iniciação. Nada muito complicado, mas dessa vez me deram um papel com uns cânticos para acompanhar o monge. Algo como o seguinte:

 

 

atha kho rājā pasenadi kosalo uṭṭhāyāsanā ekaṃsaṃ uttarāsaṅgaṃ karitvā yena bhagavā tenañjaliṃ paṇāmetvā tikkhattuṃ udānaṃ udānesi namo tassa bhagavato arahato sammāsambuddhassa, namo tassa bhagavato arahato sammāsambuddhassa, namo tassa bhagavato arahato sammāsambuddhassā

 

Entendeu? Não?! Nem eu!

Mas aos trancos e barrancos foi e, concluída a cerimônia, recebi a programação para os dias que ficaria lá:

 

  • 05:00 – Início do dia
  • 05:30 – Dhamma Talk
  • 07:00 – Café da Manhã
  • 08:00 – Meditação
  • 11:00 – Almoço
  • 12:00 – Meditação
  • 13:30 – Encontro pessoal com o professor
  • 14:00 – Meditação
  • 18:00 – Cânticos
  • 19:00 – Meditação
  • 21:00 – Fim do dia

 

Com todas as pompas cerimoniais concluídas fui para a maior sala do centro meditar. Eu achei que sem distração nenhuma seria fácil controlar a mente e focar na respiração, conforme orientou o monge. Ingenuidade minha. Se você não tem estímulos externos o cérebro se encarrega de criar alguma coisa e logo você está divagando. À ideia é você mentalmente falar “rising” e “falling”, algo como “subindo” e “descendo”, seguindo os movimentos do seu abdomen. Parece fácil, mas meus pensamentos eram mais ou menos assim:

 

_ Rising, falling, rising, falling… Acho que eu sentei meio torto, será que quem medita muito fica com problema de coluna? Imagina meditar a vida toda… Será que os monges assistem Game of Thrones?! Não posso esquecer que tenho que procurar um dermatologista. Quantos anos será que vive uma lagosta? Putz!!! Rising, falling, rising, falling…. Será que ainda passa Bob Esponja na TV?

 

Sim, foi assim o tempo todo. Obviamente a concentração foi melhorando com o passar dos dias, mas longe de ser possível se concentrar somente no que deveria por muito tempo. Segundo o professor isso é esperado, para algumas pessoas 20% de concentração e 80% de viagem total é normal no começo.

 

Sala principal onde encontrávamos o monge/professor.
Sala principal onde encontrávamos o monge/professor.

 

Os cânticos das 18 horas eram basicamente as mesmas palavras sem nexo do começo, mas agora por quarenteicincominutos! Eu achei que seria um terror, mas depois de um tempo comecei a achar uma das horas mais legais do dia. Segundo o monge essa parte é muito boa para concentração, pela dificuldade, e é verdade. Se você se distrair no meio de um sammāsambuddhassa não se acha mais na música.

 

Sala de Meditação: Vários tapetes para meditar caminhando e almofadas para sentar.
Sala de Meditação: Vários tapetes para meditar caminhando e almofadas para sentar.

 

O ponto negativo das 18 horas é que este é o momento que seu corpo está avisando que já passou muito da hora de comer alguma coisa. Felizmente não dura muito tempo, em algum ponto seu cérebro desiste de avisar porque sabe que você não vai comer nada mesmo.

Dormir não é difícil. Cada um tem o seu próprio quarto, bem simples, só uma cama e algumas almofadas para você usar se quiser meditar lá. Não tem nem um ventilador, mas como é em uma montanha não é difícil durante a noite. O sono não é um problema porque meditar cansa e você tem que acordar 5 horas da manhã.

A manhã começa com o monge falando por uma hora sobre o assunto que ele escolhe para o dia, esse momento é chamado de Dhamma Talk. Em geral ele fala sobre a necessidade de equilíbrio na vida, de como alguns problemas simples podem ser solucionados se você conhecer a si mesmo e utiliza vários exemplos de vida para explicar seus pontos. Não existe nenhuma espécie de pregação religiosa, nenhuma sugestão de que você deve virar budista, pelo contrário. Os conceitos budistas sempre são utilizados como referência, mas ele faz questão de dizer que você deve manter a sua religião (ou não religião) e fazer o bem.

 

Cada telhado é um alojamento, divididos em masculino e feminino.
Cada telhado é um alojamento, divididos em masculino e feminino.

 

O café da manhã não tem suco, não tem frutas, não tem café. Nos dias que eu estive lá era sempre noodles ou arroz. O do primeiro dia era um macarrão fininho em um caldo que parecia uma gelatina. O almoço era quase a mesma coisa, mas em geral tinha arroz e umas duas opções de vegetais em algum caldo misterioso. A fome é algo que você acostuma depois de dois dias, continua sendo chato, mas não é o pior.

 

 

Nos primeiros dias eu meditei por umas 5 horas, mas chega uma momento em que você não aguenta mais meditar. Você também já está cansado de olhar para as árvores. As outras 15 pessoas que estão lá provavelmente querem falar com você tanto quanto você quer falar com elas, mas todos tem que ficar de bico fechado. E aí vem o tédio.

Em casa você lê um livro, você abre o Facebook, você ouve música ou joga Candy Crush. Lá você olha pra parede, não nada para distrair a mente (o que é o objetivo, obviamente). Depois de 5 dias assim eu já não tinha tanta animação para meditar. Não cheguei a pensar em sair em nenhum momento, mas fiquei feliz de ter decidido ficar por apenas 7 dias.

 

Monges no Buddha Day
Monges no Buddha Day.

 

Em um dos dias que estive lá era o dia de Buda. Nesta noite, em vez dos cânticos fomos até o templo participar da cerimônia com os monges e isso foi surreal. Infelizmente não tenho fotos (aparentemente fotografar naquele momento não era um problema, mas eu simplesmente não fiz), mas a atenção para os detalhes de todos que estavam participando dançando ou tocando era impressionante. No final cantamos em frente à principal área do templo e observamos os monges conversando algo que foi impossível compreender, já que nem boa noite eu sei dizer em tailandês.

 

A entrada do centro de meditação em Doi Suthep
A entrada do centro de meditação em Doi Suthep.

 

Quando o sétimo dia chegou encontrei outros dois alunos na saída do templo. Foi estranho finalmente ouvir a voz deles, saber os nomes e conversar sobre a comida, sobre as dificuldades e as coisas divertidas. Eu não saí de lá outra pessoa, não foi um choque, não foi tão difícil e também não foi fácil. Mas, definitivamente, foram dias inesquecíveis e eu fiquei muito feliz de ter vivido esta experiência.

Se você quer fazer o mesmo e tem dúvidas deixe sua pergunta nos comentários.