Supermercado é pra comprar comida

postado em: Montenegro | 6

Montenegro seria o destino depois da Bósnia e uma das principais atrações desse país é o Parque Nacional Durmitor, uma cadeia de montanhas com picos de até 2.522 metros, onde eu tentei acampar com uma barraca de supermercado. Preciso dizer que não deu certo?

Crno Jezero - O Lago Negro na entrada do Parque.
Crno Jezero – O Lago Negro na entrada do Parque.

Ainda em Mostar conheci a Caity, uma australiana que já estava viajando há quase dois anos. Ficamos no mesmo hostel também em Sarajevo e por fim ela também iria para o parque. Tão preparada como eu ela também não tinha saco de dormir, barraca ou qualquer experiência em montanha. Para resolver o problema fomos até uma loja, compramos sacos de dormir e a Caity pegou uma jaqueta (nem isso ela tinha), mas a barraca não estava tão barata. Resolvi dar uma olhadinha no supermercado e encontrei lá uma barraca de 25 euros. Sucesso total para quem está economizando na viagem é encontrar algo 50% mais barato. Completamente equipados (cof cof!) ainda tinhamos um tour para fazer antes de ir embora.

Como a previsão do tempo era ótima resolvemos que tentaríamos ir de carona até Žabljak, a cidade onde fica o parque. Conseguimos nossa primeira carona para o dia seguinte durante o próprio tour com Sanja e Jessica, duas meninas que alugaram um carro e iriam fazer rafting em um cânion em Montenegro.

Combinação incomum de passaportes.
Combinação incomum de passaportes.

Saímos cedo no dia seguinte e em algumas horas chegamos na fronteira da Bósnia. O posto alfandegário era só uma casinha e o policial olhou curioso para a combinação não convencional de passaportes Australiano, Esloveno, Suíço e Brasileiro. Um pouco mais a frente um policial com um dente a menos nos recebia com um sorriso de quem não vê tantos turistas por dia para carimbar a entrada em Montenegro. Perguntamos sobre o hotel das meninas e o policial chamou a senhora que varria o chão com muita calma para tentar descobrir onde era. Recebendo as instruções seguimos em frente.

Depois de mais alguns minutos de carro pelas paisagens deslumbrantes de Montenegro chegamos ao destino. Caity e eu descemos na estrada e começamos a levantar o dedão esperando que alguém parasse. Ficamos por cerca de meia hora na estrada até que um senhor dono de um camping na região nos levou até um túnel que subia a montanha. Descemos e ficamos olhando o lago. Talvez tenha sido apenas 15 minutos até que um senhor parou seu carrinho velho e nos levou montanha acima.

Felicidade é gastar zero reais com transporte.
Felicidade é gastar zero reais com transporte.

Ele não falava absolutamente nada em inglês e meu montenegrino estava enferrujado, então ele falou o nome de vários países e eu entendi que era pra saber de qual deles eu era. Falei “Brasil” e ele se animou – e justiça seja feita, falar que é brasileiro abre um sorriso na cara das pessoas em quase 100% das vezes. Ainda perguntou pausadamente em uma mistura de línguas “Brasil… Montenegro… Avión?”. Eu tentei explicar com um misto de croata, inglês e linguagem de sinais como cheguei lá. Não sei o quanto ele entendeu, mas o assunto acabou por aí. Ele nos deixou em uma bifurcação onde a direita ia para o nada e a esquerda para lugar nenhum. Agradecemos a gentileza enquanto ele apontava qual era a direção correta para nós e acelerava com cara de satisfeito por ter ajudado.

Caity nas montanhas do Teletubbies.
Caity nas montanhas do Teletubbies.

Ficamos vendo a grama crescer torcendo para que não chovesse até que surgiu um caminhão com um motorista gordinho que parou e tivemos o seguinte diálogo:

 

Eu: Žabljak?

Ele: Žabljak?

Eu: Žabljak!

Ele: Žabljak?

Ele: Žabljak!

Eu: Žabljak!

 

Como ficou tudo esclarecido nesse papo colocamos as mochilas na carroceria e partimos. O problema é que ele começou a voltar pelo caminho que fizemos alguns minutos atrás. Para evitar uma confusão tive que fazer uma pergunta:

 

Eu: Žabljak?

Ele: Žabljak!

 

Falou tá falado, né?! Quem sou eu pra dizer que o cara que mora lá está errado. Acho que ele ficou meio desconfiado depois disso e parou um carro que vinha em nossa direção e perguntou:

 

Ele: Žabljak?

 

Tá! Ele não falou só “Žabljak” para o motorista, mas foi só o que eu entendi. Quando ele começou a manobrar eu também entendi que Žabljak realmente não era naquela direção e daí pra frente foi mais tranquilo. A conversa com ele não existiu. De tempos em tempos eu mandava um “dobro”, apontando para a paisagem, que significa “bom” em croata (eles entendem praticamente 100% de croata). Eu queria dizer bonito, mas não lembrava na hora. E realmente era muito bonito.

Essa não é a parte bonita que eu falei, mas eu esqueci a câmera na mochila.
Essa não é a parte bonita que eu falei, mas eu esqueci a câmera na mochila.

 

Isso deve ter dado umas 2 ou 3 horas de caminhãozinho nas montanhas e ele nos deixou bem perto, porém em uma estrada sem acostamento onde os carros passavam muito rápido. Decidimos caminhar por cerca de 20 minutos até um restaurante e tentar outra carona lá. Estávamos a uns 6 quilômetros de Žabljak, mas caminhar com mochilas por uma hora não é tão confortável quanto possa parecer. Surpreendentemente conseguimos carona com um senhor que estava indo para o lado contrário, mas se ofereceu para voltar até a cidade para nos levar (Como já falei aqui, a quantidade de pessoas gentis no mundo ainda me surpreende).

Com isso, depois de 5 caronas e umas 8 horas de viagem, chegamos no destino final. Encontramos o hostel e compramos comida para subir a montanha na manhã seguinte sabendo que a previsão para os próximos dias era de chuva.

Uma cadeira no lago. Por que não, né?!
Uma cadeira no lago. Por que não, né?!

O dia seguinte não estava dos piores. Apesar de o sol não ter se apresentado para serviço não estava chovendo, o que já era ótimo. Passamos no supermercado para pegar água e partimos para o parque e assim que entramos, pelo Crno Jezero, o principal lago de Durmitor, a chuva começou e paramos para um lanche forçado. Quando melhorou um pouco decidimos sair e não parar independente das condições, afinal tínhamos jaquetas e botas impermeáveis e, na pior das condições, uma barraca como abrigo.

Pensando que estava indo para o lado certo.
Pensando que estava indo para o lado certo.

Quem já leu outros posts aqui talvez tenha percebido que eu me perco toda hora. Eu nem me importo muito com isso, mas não é exatamente o que você pode querer em um parque de 390 quilômetros quadrados com fontes de água bastante limitadas. Mas como eu comecei em Durmitor? Me perdendo, claro. Vi no mapa que só tinha uma saída do lago e fomos logo por ela, depois de uns 20 minutos subindo vi uma trilha adjacente que não deveria estar ali. Com aquela cara de pateta abri o mapa inteiro para descobrir que bem na dobra do papel estava a trilha certa.

A última casinha no começo da trilha (certa).
A última casinha no começo da trilha (certa).

Finalmente no caminho certo seguimos por algumas horas montanha acima. O tempo foi alternando entre nublado, chuvoso, meia hora de sol e um pouquinho mais de chuva. Como a maior parte da trilha era na floresta a água não incomodou. Por volta das 16 horas chegamos a uns 2000 metros de altitude, onde as árvores não eram mais altas o suficiente para servir de abrigo.

Obviamente esse foi o momento onde a maior chuva do dia deu o ar da graça. Lembra da bota e da jaqueta impermeável? Ninguém contou para elas o que impermeável significa. Já sentindo que até minha cueca estava molhando começamos a procurar por um lugar para armar a barraca, o que foi uma tarefa complicada já que o terreno era muito irregular e cheio de pedras.

Achei um lugar razoavelmente regular com [só] umas três pedras embaixo e foi ali mesmo que o abrigo emergencial foi erguido. Jogamos as mochilas para dentro e descobrimos que a barraca não era tão grande quanto pensávamos, mas pelo menos estávamos protegidos da chuva. Isso foi o que achávamos até que 5 minutos depois começamos a sentir gotas caindo do teto. Sim, a barraca tinha goteira. Não só isso, a chuva era tão forte que começou a entrar água por todos os lados e logo tinhamos uma pequena piscina na barraca (se isso é tá na pior, porrãn).

Como as opções eram se molhar um pouco na barraca ou muito fora dela ficamos com a primeira. Felizmente uma hora depois a chuva praticamente parou e, certos de que passar a noite ali seria uma má ideia, seguimos para tentar chegar em um abrigo antes de anoitecer.

Nosso abrigo. Achei no AirBnb.snq
Nosso abrigo. Achei no airbnb.sqn

 

Por sorte estávamos relativamente perto e o tempo ainda melhorou quando chegamos. O abrigo é basicamente um telhado com porta. No interior um caixote gigante de madeira onde todos colocam seus sacos de dormir em cima e um banco. Não tem Wi-Fi, não tem energia, não tem banheiro, não tem papel. Mas tem cerveja. Sim, tem cerveja!

Temos ovelhas e cerveja.
Temos ovelhas e cerveja.

 

Do lado do abrigo mora um pastor de ovelhas que passa o dia cuidando delas nas montanhas. Ele sacou que quem passava por ali ficaria feliz em pagar dois euros por meio litro de cerveja e estava fazendo uma grana extra com isso.

Acampamento do lado do abrigo. Essa não é a minha barraca. É a barraca que uma pessoa coerente comprou.
Acampamento ao lado do abrigo. Essa não é a minha barraca. é a barraca que uma pessoa coerente comprou.

 

Passamos a noite no abrigo que já tinha um pessoal também fugindo da chuva. A ideia era sair na próxima manhã para visitar uma caverna e depois subir no pico mais alto do parque, o Bobotov Kuk. Quando amanheceu o tempo tinha outra ideia, as nuvens estavam em volta do acampamento e a chuva era constante, seria besteira tentar subir em um dia assim. Felizmente eu tinha “Guerra e Paz” para ler e cereal para comer. É… não foi o dia mais emocionante da minha vida.

Minha cara o dia todo esperando a chuva passar.
Minha cara o dia todo esperando a chuva passar.

 

Ok, mais uma manhã, hoje vai. As botas ainda estavam molhadas (qual é o contrário de impermeável?), a jaqueta também e o tempo ainda estava ruim. Mas… “não aguento mais ver ovelhas”. Deixamos a mochila com o peso e saímos só com água, um pouco de comida e câmera para chegar ao topo do Bobotov. As paisagens mudavam drasticamente, muito verde, muita pedra, gelo, barro, mais verde. Em algumas passagens muitas nuvens e a temperatura mudando rapidamente. Quando chegamos no topo só se viam nuvens e um pouco do resto do parque pelos espaços que abriam por alguns segundos entre elas.

Um pedacinho do caminho. Na foto duas pessoas subindo para dar uma idea do tamanho da montanha.
Um pedacinho do caminho. Na foto duas pessoas subindo para dar uma idea do tamanho da montanha.
O verde dando lugar às pedras.
O verde dando lugar às pedras.
Mais pedras.
Esses traços e bolinhas vermelhas são a única indicação do caminho quando se anda no meio das pedras, especialmente com muita neblina.
E tudo verde de novo.
E tudo verde de novo.
As nuvens vêm e vão muito rápido. Em alguns poucos momentos foi possível ver tudo em volta.
As nuvens vêm e vão muito rápido. Em alguns poucos momentos foi possível ver tudo em volta.
O que foi que eu vim fazer aqui mesmo?
O que foi que eu vim fazer aqui mesmo? Ah, é! Subir e voltar.
Próximo do topo não tem mais caminho, só usando os cabos para não cair. Não tire selfies aqui, é assim que pessoas imprudentes morrem.
Próximo do topo não tem mais caminho, só usando os cabos para não cair. Não tire selfies aqui, é assim que as pessoas morrem.
Possivelmente a pessoa no ponto mais alto do país nesse momento.
Possivelmente a pessoa no ponto mais alto do país nesse momento.
Uma foto besta e já pode fazer todo o caminho de volta.
Uma foto besta e já pode fazer todo o caminho de volta.

 

Trilhas em montanhas normalmente se resumem a quilômetros de caminhada por horas para chegar no topo, olhar por 5 minutos e voltar. Coisa de maluco né?! Pois é, foi o que fizemos. Na volta mais chuva, ficar molhado já nem era problema, mas descer foi muito chato com tudo escorregadio. Pular as pedras não era mais uma opção e por mais cuidado que tivéssemos de tempos em tempos alguma coisa deslizava e a gente ia junto. Com paciência chegamos até a parte mais plana sem quebrar nenhum osso. Mais algumas horas e estávamos de volta no acampamento para dormir mais uma noite e voltar na manhã seguinte.

A manhã do dia que você não precisa do sol.
A manhã do dia que você não precisa do sol.
Até as ovelhas deram uma passada pra dar bom dia.
Até as ovelhas deram uma passada pra dar bom dia.

 

Claro que o dia de ir embora amanheceu com céu claro e o sol brilhando. Não que a gente se importasse. Na verdade as únicas coisas na cabeça eram banho, comida quente e café. Prioridades atendidas nessa ordem.

Tendo uma conversa séria com o sol no caminho de volta.
Tendo uma conversa séria com o sol no caminho de volta.

Subir essa montanha não foi como o Everest mas talvez nesses quatro dias eu tenha me divertido mais do que se fosse. O mais importante é que eu aprendi uma lição de vida essencial: Não compre sua barraca no supermercado.

 

 

 

Compartilhe este post:
Share on Facebook48Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Share on Tumblr0Share on StumbleUpon0Email this to someone
Seguir Rodrigo Belasquem:

Depois de algumas curtas viagens pela América do Sul achou que 10 dias não eram suficientes para conhecer muita coisa. Largou o emprego e viaja pelo mundo conhecendo lugares, pessoas e fotografando nas horas vagas (que são todas).

6 Respostas

  1. Conheci seu blog hoje, e ri muito com seu texto (amei a parte do diálogo com o motorista hahahahahaha). Ótimo blog!

    • Rodrigo Belasquem

      Oi, Flávia! Fico feliz que você gostou. Viu que eu entendi tudo que o motorista falou, né?! hahaha.

  2. Olá Rodrigo!

    O mundo dá muitas voltas né?!? Jajajajajaja

    Perdidos pela Internet, acabamos caindo por aqui hoje. Algo como aquele dia no Durmitor em que estávamos perdidos também e você nos ajudou com seu mapa. Jajajajaja Te confesso que ficamos meio preocupados com vocês ao longo daquele dia. Apesar de bastante coragem, não pareciam ser muito especialistas naquilo. E, pelo seu texto, estávamos certos! Jajajaajajajaja.

    Nós pegamos muita chuva naquele dia, nos perdemos pela montanha e não conseguimos chegar onde queríamos. Pensamos muito em vocês e mandamos umas energias positivas para que desce tudo certo!

    Que bom que deu!

    Grande abraço e boa viagem
    Rafael e Vanessa

Deixe uma resposta