O Turista e a Bicicleta

postado em: Holanda | 4

É fácil ver quem é turista na Holanda, mais evidente ainda se ele não for europeu. Eles olham para todos os lados na hora de atravessar a rua e não sabem como cruzar o mar de bicicletas que vem de todos os lados. Se o turista estiver de bicicleta as coisas não ficam mais simples, ele entra no lado errado, não sabe se conectar aos outros em uma curva e não tem ideia de que andar sem iluminação durante a noite dá multa.

O típico turista achando que tá arrasando de bike.
O típico turista achando que tá arrasando de bike.

Para os holandeses a bicicleta parece uma extensão do corpo. Mais de 30% deles dizem utilizar ela como principal meio de transporte e todos se acostumam desde crianças andando com os pais em bicicletas cargueiras ou em um dos vários tipos de cadeirinhas disponíveis. Por volta dos 12 anos as crianças são treinadas de fato e até recebem um certificado chamado Verkeersdiploma.

Mesmo sem diploma nenhum eu pedalei bastante em Haia e agora mais 40Km em Utrecht. Nessa última fiz um vídeo onde dá pra ver um pouco de como é a cidade (e essa nem é a parte mais bonita) e como é a estrutura para bicicletas.

A Holanda foi um dos primeiros países a observar uma adoção em massa da bicicleta. Em 1890 o país já construía as primeiras pistas exclusivas para ciclistas e em 1911 tinha a maior quantidade de bicicletas per capita da Europa. Apesar do início promissor a bicicleta não teve sempre o seu lugar. Logo após a segunda guerra os automóveis ficaram bastante acessíveis e o uso da bicicleta começou a enfraquecer.

Em 1970 os holandeses foram as ruas protestar contra a morte de crianças em acidentes envolvendo carros. O sucesso destes protestos e a crise do petróleo em 74 levaram o governo a priorizar outras formas de transporte no país e a adoção de diversas políticas transformaram a cara do trânsito nas cidades holandesas.

Essa é só uma parte do estacionamento para bicicletas da estação Utrecht Centraal.
Essa é só uma parte do estacionamento para bicicletas da estação Utrecht Centraal.

Existe uma extensa rede de ciclofaixas e ciclovias bem cuidadas e sinalizadas, inclusive ligando diferentes cidades. Sempre que há espaço existe uma ciclovia que pode ser de mão única ou mão dupla. Se não houver ciclovia existe uma ciclofaixa e em zonas residenciais os ciclistas podem usar a rua inteira com preferência sobre veículos. O mais importante, os motoristas realmente respeitam os ciclistas.

A geografia foi generosa com os usuários das bikes. O país é praticamente plano, então qualquer jornada, mesmo entre cidades, não apresenta praticamente qualquer desnível.

As ciclovias tem sua própria sinalização e nas rotatórias geralmente a preferência é das bikes.
As ciclovias tem sua própria sinalização e nas rotatórias geralmente a preferência é das bikes.

Outro ponto importante é o clima, meu amigo Cristiano (esportista e ciclista dedicado) lembrou desse fator já que Belém apresenta temperaturas e umidade muito altas. Isso de fato faz muita diferença aqui. Como o clima é ameno as pessoas podem ir para o trabalho ou escola já vestidos para o dia porque é muito difícil suar em uma pedalada normal, mesmo no verão.

Com todos estes fatores a única coisa que os holandeses se preocupam com relação às bicicletas é em ter uma boa corrente (boa mesmo, muitos utilizam aquelas que os motoqueiros usam no Brasil. Roubar bikes é um esporte nacional e mesmo com as travas é comum ver uma roda solitária presa em um poste ou uma bicicleta depenada ainda firme pelo cadeado.

Dá pra tentar fazer um monociclo.
Dá pra tentar fazer um monociclo.

Seja como for, tudo funciona muito bem e seria excelente se fosse replicado do jeito que é aqui para o resto do mundo. Para termos um sistema tão bom como este no Brasil basta trabalhar os outros pontos, porque os ladrões de bicicleta nós já temos.

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Seguir Rodrigo Belasquem:

Depois de algumas curtas viagens pela América do Sul achou que 10 dias não eram suficientes para conhecer muita coisa. Largou o emprego e viaja pelo mundo conhecendo lugares, pessoas e fotografando nas horas vagas (que são todas).

4 Respostas

  1. Cara, essa questão do uso de bicicletas em alguns países da Europa é demais. Quando estive em Aalborg na Dinamarca me surpreendeu muito. A cidade tem uma estrutura imensa para bicicletas. Inclusive um estacionamento de bicicletas gigante do lado da estação do trem.

    • Acho que a Dinamarca tá no mesmo nível da Holanda. Pelo que eu li por lá a transformação foi meio forçada também. O pessoal reclamou quando começaram a fechar as ruas mas eventualmente todo mundo viu os benefícios.

  2. “Seja como for, tudo funciona muito bem e seria excelente se fosse replicado do jeito que é aqui para o resto do mundo. Para termos um sistema tão bom como este no Brasil basta trabalhar os outros pontos, porque os ladrões de bicicleta nós já temos.”

    Inclusive podemos exportar, se estiver faltando aí… 🙂

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