Natal na Coreia do Norte

postado em: Coreia do Norte, Viagem | 15

Eram cerca de 15h quando nosso trem parou para a última inspeção na saída da Coreia do Norte, a apenas um quilômetro da fronteira com a China. Eu já tinha separado minha câmera e o celular para os policiais verificarem, mas o oficial de uniforme impecável que entrou na nossa cabine apontou indicando que queria algo da minha mochila.

As estatuas dos Kims
As estátuas dos Kims.

Ir para a Coreia do Norte foi algo que eu considerei desde o começo desta viagem. Um país cheio de peculiaridades governado por líderes excêntricos e cercado de mitos, ou não, mas isso eu queria ver com meus próprios olhos. Mas como passar três dias lá custa o mesmo do que três semanas em países como Vietnam e Camboja eu tinha deixado a ideia de lado.

Por acaso vim parar na China e resolvi conferir de novo os preços na companhia que achei mais interessante. Vi logo estampado no site “Faça parte do primeiro grupo de turistas a passar o natal na Coreia do Norte”. Passar o natal em um país que reprime qualquer manifestação religiosa?! Claro, por que não?!

O visto para Coreia do Norte
O visto para Coreia do Norte.

Dia 23 chegou e logo eu estava em uma viagem de trem de 15 horas de Pequim até Dandong, nos limites da China. Já com visto na mão (que é só um papel azul) e um bilhete de trem escrito à caneta embarcamos no trem cheio de norte-coreanos. Talvez você esteja surpreso, como eu fiquei, de saber que alguns deles podem viajar (cerca de 15 mil vão para os exterior todo ano). Obviamente os que podem viajar em geral tem uma vida confortável o suficiente para não pensar em fugir. Os que sofrem não têm liberdade nem para viajar dentro do país e precisam de autorização para tal.

Um sistema meio caótico onde você entra no trem, saí e entra de novo causava um certo tumulto. Especialmente porque os norte-coreanos aproveitam a ida a China para voltar cheios de mercadorias e fazer uma grana extra (comunismo what?). Mas enfim todos nos seus lugares, em poucos minutos atravessamos a ponte e finalmente estávamos na Coreia do Norte. Aí entram vários policiais, alguns vendo passaporte, outros perguntando sobre câmera e celular.

Existem algumas limitações na entrada, sem lentes grandes nas câmeras, livros ou filmes sobre a Coreia do Norte não são bem vindos (incluindo guias de viagem), pornografia também não e livros religiosos (bíblia, alcorão e afins) até podem entrar, mas eles vão querer ter certeza de que você vai voltar com eles. Eu já sabia disso e estava esperando uma busca meticulosa, mas somente um policial olhou minha câmera, passou 30 segundos tentando ligar para descobrir que eu não tinha foto nenhuma. Outro policial achou um gif de um pênis girando (pois é, não me pergunte) no Weechat de uma menina e só deu risada. Os policiais que checaram um laptop se divertiram por alguns momentos com um audiobook de Harry Potter (o segundo, não lembro qual é). E foi isso. Considerando que vistos para a Coreia do Norte raramente são negados (exceções para sul-coreanos e em geral para jornalistas) e que o processo de inspeção é tranquilo eu diria que é mais fácil entrar lá do que nos Estados Unidos.

Paisagem da área rural vista do trem.
Paisagem da área rural vista do trem.

 

Com tudo certo o trem começou a avançar devagar. Ainda teríamos cinco horas até a capital Pyongyang e no começo todos estavam colados nas janelas tentando ver finalmente como era o país por dentro. Primeiro alguns prédios, um parquinho abandonado e depois campos e mais campos cobertos de neve. As pessoas iam de um lado para outro nas suas bicicletas, mas não consegui identificar de onde para onde tanta gente se movia. Carros eram raros e vi tantas motos quanto galinhas (e eu poderia contá-las em uma mão). Lembro exatamente que vi três bois no caminho, todos puxando carroças. Pela paisagem fica claro que a população depende muito do que planta e com temperaturas quase constantemente negativas o inverno deve ser um período muito difícil para eles.

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Depois de algum tempo a paisagem foi ficando repetitiva e quase todos perderam o interesse no exterior. Felizmente nossos guias australianos estavam ali e de tempos em tempos alguns assuntos interessantes sobre Coreia do Norte surgiam e muita coisa do que eu não vi lá descobri conversando com esses caras que já tem centenas de dias de Coreia no currículo.

Já era noite quando chegamos na estação de Pyongyang. As portas se abriram e com os olhos ainda acostumando com a diferença entre as luzes do interior do trem e as da estação só senti o frio que fazia na plataforma antes de ver qualquer coisa. Levou um segundo ou dois para eu perceber que a verdade era que não tinha luz nenhuma, era o primeiro blackout da viagem: “Bem-vindo a Pyongyang”. Em algum lugar uma musiquinha macabra tocava e a única luz da estação iluminava uma imagem de Kim Il-Sung (ou do filho dele, não prestei atenção). Nossos guias norte-coreanos já nos esperavam e de ônibus fomos em direção ao hotel enquanto a guia mais velha, muito simpática, explicava como seria nosso tour.

Mesmo durante a noite deu pra perceber que o hotel era imponente para um país como este. 47 andares com um restaurante giratório no topo. Na recepção uma TV sintonizada na emissora nacional (porque é a única opção) exibia cenas de sucesso do país nos esportes, todas em preto e branco alternando às vezes com aquele colorido desbotado dos anos 80. Recebemos a boa notícia de que teríamos água quente 24 horas (em geral é só por uma hora de manhã e uma hora à noite) e todos foram para seus quartos se preparar para o jantar. No elevador o andar pula do 4º para o 6º, falamos um pouco sobre o secreto 5º andar e continuamos subindo.

Moderno sistema no quarto do hotel.
Moderno sistema no quarto do hotel.

Estava dividindo meu quarto com um inglês e quando abrimos a porta o quarto pareceu bem normal e espaçoso. A única coisa que parecia não pertencer ao lugar era uma espécie de rádio gigante que não sintonizava nada e um telefone que possivelmente é mais velho que eu (e olha que eu assistia Machete).

Pyongyang à noite.
Pyongyang à noite.

Pela janela do 38º andar Pyongyang parece uma cidade normal, exceto pelo assustador baixo número de carros nas ruas. A iluminação fora do centro também é básica, mas vendo a foto poderia ser qualquer lugar na Ásia.

Nos avisaram novamente algo que já sabíamos “Vocês não podem sair do hotel”. Então jantamos e começamos a circular por tudo que havia no hotel: as lojas, sinuca, karaokê, boliche, ping pong e o restaurante giratório no topo. O hotel de 1000 quartos tinha como hóspedes apenas o nosso grupo e mais uns gatos pingados, então éramos os únicos em tudo. No restaurante do topo só ligaram o motorzinho pra girar quando fomos tomar uma cerveja de 5 reais.

Natal no Karaokê do hotel
Natal no Karaokê do hotel.

Em algum momento 4 de nós resolvemos explorar o quinto piso que supostamente seria uma área de controle de segurança, mas vai saber né. Primeiro o elevador só ia até o oitavo andar, caminhamos pela escada até o quinto mas a porta estava lacrada. O sexto estava aberto e começamos a andar pelos corredores, vários deles com propagandas que não imagino o que dizem e encontramos uma das portas abertas. Melhor do que eu tentar explicar é mostrar a foto abaixo. Saímos logo dali e voltamos para beber no karaokê que era mais seguro e divertido. E afinal era noite de natal.

Um dos quartos abandonados do hotel.
Um dos quartos abandonados do hotel.
Eles não manjam muito de decoração na Coreia do Norte.
Eles não manjam muito de decoração na Coreia do Norte.

Na Coreia do Norte não tem natal. Religiões não fazem parte da vida das pessoas em um país onde só se idolatra os líderes. Portanto, com exceção de uma árvore de natal sem decoração no nosso hotel, não havia qualquer outra referência ao dia.

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Na manhã seguinte saímos cedo para conhecer Pyongyang. Observar a movimentação da cidade alheia aos nossos olhares na janela do ônibus foi uma das coisas mais interessantes dessa visita. Eu imaginava um lugar cinza com pessoas cabisbaixas andando com suas caras fechadas pela rua, mas acredite ou não, a rotina é (aparentemente) bem normal. Lembro claramente do rosto de uma mulher rindo muito enquanto caminhava ao lado de um homem que aparentava a mesma idade. Algumas pessoas conversando na calçada, crianças brincando.

Pyongyang parece até um lugar normal vista de longe.
Pyongyang parece até um lugar normal vista de longe.

Nossa primeira visita foi às estatuas de Kim il Sung e Kim jong Il, os falecidos amados (?!) líderes norte-coreanos. Antes da chegada recebemos as instruções: Quem quiser depositar flores em frente à estátua é bem-vindo. Em seguida vamos fazer uma reverência (sim, tivemos que fazer isso). Com relação as fotos, somente pegando as duas estátuas de corpo inteiro. Vai entender…

Kim Il Sung e Kim jung Il estão por toda parte.
Kim Il Sung e Kim jung Il estão por toda parte.

As estátuas de bronze de 22 metros já podiam ser vistas do caminho que levava à área central da praça. Paramos um pouco antes porque militares estavam limpando a área e organizando as coroas de flores. Como fotos de militares são “No No” ficamos ali uns 10 minutos esperando o pessoal terminar o serviço. Aliás, aproveitando para abrir um parêntese sobre militares, a ampla maioria que vi estavam com um pá cavando buracos, carregando cimento em obras ou em volta de trens. Militares com armas provavelmente estavam dormindo nesse dia.

Entre um e outro ponto turístico nossa guia nos falava das maravilhas da Coreia do Norte. Alguns exemplos foram os apartamentos modernos que são de graça e para “as pessoas normais”, a não existência de impostos no país e que famílias que têm trigêmeos recebem uma medalha de ouro (?) e vários presentes do governo.

Grand People's Study House - A enorme biblioteca com livros escondidos.
Grand People’s Study House – A enorme biblioteca com livros escondidos.

Paramos na Grand People’s Study House, uma biblioteca imensa e realmente muito bonita por fora. Supostamente o prédio tem capacidade para armazenar 30 milhões de livros, mas só vimos uns 2 mil. A maioria deles não está em exposição e vêm por uma esteira através de um buraco na parede quando você solicita à bibliotecária. Obviamente o acervo é bastante limitado e a grande maioria dos livros solicitados são de autoria de um dos Kims.

Alguém nos esperava logo depois da porta: uma espécie de recepcionista/guia que explicou tudo sobre o lugar em coreano enquanto nossa guia traduzia. E isso foi muito estranho porque logo depois percebi que essa recepcionista falava inglês fluente. Só mais uma coisinha sem explicação.

A moderna sala de Apreciação musical com VHS
A moderna sala de Apreciação musical com VHS.

 

E claro, o moderno toca fitas double deck com CD player embutido.
E claro, o moderno toca fitas double deck com CD player embutido.

Além da parte de leitura conhecemos minha área favorita da visita: a sala de apreciação musical. Eu esperava alguns instrumentos mas o que vi foram dezenas de toca-ficas com CD-Player enfileirados ao lado de diversos televisores com VHS integrado. Algumas pessoas olhavam atentas para a tela e tinha até alguém fazendo anotações. No fundo da sala um dos diversos computadores disponíveis estava ligado e a tela exibia um sistema com cara de 1995. Aliás, o lugar todo tinha cara de 1995.

Atualizando o Facebook.
Atualizando o Facebook.
Me lembra um emulador de Super Nintendo.
Me lembra um emulador de Super Nintendo.

O trânsito é muito tranquilo, somente na área central existe uma quantidade razoável de carros e para controlá-los existem guardas de trânsito como em qualquer outra cidade. Bom… quase. Os guardas do sexo masculino são normais, mas as mulheres que fazem o mesmo serviço se movimentam de uma maneira bizarra. Elas movem o pescoço como robôs e giram o corpo como se as articulações fossem eixos muito limitados. 

À tarde fomos em um museu nada interessante. As luzes foram sendo acendidas quando chegamos. Aparentemente os locais não se interessam tanto pelo lugar e por mais que eu fosse fã dos Kims eu também não me interessaria, mas mais uma vez foi divertido ver como as pessoas que trabalhavam lá se divertiam com as piadas que nossos guias (australianos, não os guias coreanos faziam). Sorriam muito e alto, especialmente quando era algo do tipo “Quer casar comigo?”.

Estátuas na Torre Juche.
Estátua na Torre Juche.

Nos relatos que li antes da viagem os autores sempre diziam que os guias coreanos eram bastante rígidos e não deixavam você se afastar, prestavam muita atenção as fotos, etc. A verdade é que os nossos estavam tão tranquilos que por vezes até perderam pessoas de vista. Depois do museu caminhamos sobre o rio e nossa fila ficou longa para nossos guias. Por um momento eu estava andando sozinho pelas ruas de Pyongyang e se quisesse pegar uma das esquinas e me perder por lá poderia (só faltou um motivo para querer).

Caminhando em Pyongyang.
Caminhando em Pyongyang.

Nosso guia mais jovem, Yun (não é o nome verdadeiro), tinha um inglês bom o suficiente para uma conversa longa, mas falava tão baixo que era difícil compreender tudo sem prestar bastante atenção. Só uma característica pessoal, não coreana. Yun cursou geologia em Pyongyang, disse que a paixão dele é areia, terra e rochas, mas os pais queriam algo mais promissor e insistiram que ele tentasse uma carreira como guia. Com 33 anos ele acabou de ser pai de um menino, que segundo ele vai ser o único. Mesmo morando em Pyongyang ele não vai para casa na maioria das noites. Os guias têm que ficar o tempo todo próximos dos turistas. Yun iria ficar quase uma semana sem ver o filho que estava a um quilômetro do nosso hotel.

Nossas conversas eram bem normais. Um diálogo enquanto esperávamos o ônibus seguir para o próximo ponto foi mais ou menos assim:

Yun: “Você acha as coreanas bonitas?”
Rodrigo: “Sim, vi algumas bonitas. E você o que acha?” (realmente vi, não estava tentando ser legal)
Yun: “Sou casado, não posso mais ficar olhando muito (risos)”
Rodrigo: “Olha aquela lá. É bonita”
Yun: “Ah! Não vi. Olha pra cá de novo… (mais risos)”
Yun: “No museu da guerra tem uma guia que é muito bonita. Pena que eu sou casado…”

 

Obviamente não puxei nenhum assunto sobre política que pudesse ser constrangedor. Quase tudo era pessoal. Ele mostrou fotos da família dele, eu mostrei da minha. Perguntei se ele viajava para as montanhas, se sempre morou em Pyongyang, etc. O que me surpreendeu foi a pergunta dele quando chegamos ao metrô.

Estação de Metrô de Pyongyang.
Estação de Metrô de Pyongyang.

O metrô de Pyongyang em tese é o mais profundo do mundo, o de São Petersburgo também diz ser. Seja como for já fui nos dois e são realmente muitos metros de escada até chegar no nível dos trens. Enquanto falávamos sobre isso Yun me disse que, em tese, as estações podem resistir à bombardeios devido à essa profundidade. E então ele me perguntou com um tom de quem realmente está curioso por uma opinião externa:

“Você acha que realmente poderia resistir à um bombardeio?”

 

Pode parecer uma pergunta besta, mas na Coreia do Norte se o governo diz que resiste você acredita, mas Yun talvez não acredite tanto assim. Se você gosta de teorias da conspiração pode pensar agora que Yun é algum tipo de espião querendo encurralar estrangeiros com perguntas desse tipo.

Monumento do Partido. Não preciso dizer qual partido porque só tem um mesmo.
Monumento do Partido. Não preciso dizer qual partido porque só tem um mesmo.

Li muito sobre estas “armações” antes da viagem também, bem como crianças bonitinhas que falam inglês colocadas no caminho para parecer que as coisas funcionam bem na capital. Isso é verdade? A resposta (para mim) é “não”. Eu realmente acho que as pessoas são muito inocentes para pensar isso ou são oportunistas e querem que as coisas pareçam mais estranhas para atrair leitores. A Coreia do Norte já é bizarra o suficiente sem essas situações e Pyongyang é OK, principalmente porque boa parte da população tem boas posições no partido e estudam nas melhores universidades. Algumas crianças realmente aprendem inglês e as pessoas se vestem bem. Isso não faz o país ser bom (nem de longe), mas achar que é tudo um teatro a céu aberto é muita criatividade.

De volta ao metrô, o preço de uma viagem é ridículo (R$ 0,04) e as duas linhas são muita utilizadas. Chegamos na estação que tem uma cara de antiga com uma tentativa de ser moderna. Exceto pelos trens, estes parece que acabaram de chegar de 1975.

Mapa com as duas linhas do metrô de Pyongyang.
Mapa com as duas linhas do metrô de Pyongyang.

Começamos nossa viagem acompanhados por mais uma música macabra (Acho que pra eles é tipo “Aí se eu te pego”. Ninguém assoviou para acompanhar). Um Kim Il Sung sorridente nos observava ao lado de outra figura do filho quando as luzes se apagaram. Era mais um blackout, o trem começou a andar devagar já que com baterias a velocidade fica reduzida ao mínimo e como a energia não voltou a tempo o trem parou. No meu canto perto da janela eu pensei “Eu estou em um metrô velho, parado entre as estações, espremido como uma sardinha, no dia 25 de dezembro, na Coreia do Norte. Vai ser difícil bater esse natal.”

Metrô iluminado pela luz de emergência enquanto esperávamos a energia voltar.
Metrô iluminado pela luz de emergência enquanto esperávamos a energia voltar.

Apesar de estar cerca de 2º C na rua nosso vagão já estava parecendo verão no Brasil então todos vibraram quando a energia voltou. Bom, todos os turistas. Acho que os coreanos já estão acostumados.

Jornal do dia exposto na estação de metrô.
Jornal do dia exposto na estação de metrô.

Na estação que descemos várias pessoas iam e vinham apressadas e alguns locais liam o jornal do dia que fica exposto bem no centro. Quase tudo no periódico era sobre esportes, mas digo isso me baseando pelas fotos. Poderia muito bem ser “Operação com soldados disfarçados de jogadores de basquete foi um sucesso”.

Fora da estação vimos o arco do triunfo que a guia orgulhosamente nos disse ser maior do que o de Paris. Acredito nela, realmente parece maior.

O Arco do Triunfo da Coreia do Norte.
O Arco do Triunfo da Coreia do Norte.

Partimos para a última visita do dia: O Museu da Guerra. A visita inicia com uma exposição de veículos de guerra capturados pelos norte-coreanos. Alguns blindados, aviões abatidos, helicópteros e o orgulho da Coreia do Norte: o USS Pueblo.

Esse navio (ou corveta, ou bote – pois é, não é minha área) aparentemente destinado à análises ambientais era um navio espião americano capturado em 1968. Você pode entrar no navio andar pelas diferentes áreas e assistir um vídeo sobre a história da captura. Obviamente a história diverge um pouco entre coreanos e americanos, mas é fato que foi um navio espião.

Museu da Guerra
Museu da Guerra.

Saindo do navio nos dirigimos para a área interna do museu, não sem antes receber o aviso de que não poderíamos fotografar o interior. Eu pensei que era até bom, esses museus são entediantes mesmo. Vi que estava errado assim que as portas se abriram: o interior era absurdamente suntuoso. Logo em frente à porta uma estátua enorme de Kim Il Sung sorria e acenava com um fundo cheio de fogos de artifício. As paredes, o chão e o teto eram impecáveis.

Começamos nosso tour ainda boquiabertos e em poucos minutos adivinhem o que aconteceu: mais um blackout! A guia do museu meio constrangida disse que esse dia eles não estavam abertos era uma exceção somente para estrangeiros e que nesse dia estavam fazendo algumas manutenções (aham! Acreditamos). Seguimos caminhando com as lanternas dos celulares iluminando tudo e eu tenho que dizer que fora o luxo do lugar o museu em si deve ser interessante somente para militares e membros do partido.

Ao fundo o hotel Ryugyong de 105 andares que começou a ser construído em 1986 e hoje só tem o exterior concluído.
Ao fundo o hotel Ryugyong de 105 andares que começou a ser construído em 1986 e hoje só tem o exterior concluído.

 

A parte legal, porque foi engraçada, foi a guia (do museu) explicando a guerra da Coreia. Os norte-coreanos dominaram quase todo o território por um breve período (nessa parte ela narrava com entusiasmo as conquistas). O problema é que logo depois eles foram encurralados no extremo norte e ela não poderia ignorar essa parte. Na narrativa ela chamou isso de “Retirada estratégica”. Aparentemente ela realmente acredita nisso, tanto quanto que o blackout é só manutenção elétrica.

Tivemos mais uma “manutenção elétrica” e acabamos terminando o tour um pouco mais cedo. Enquanto começava a nevar fomos para um restaurante para o último jantar (A propósito a culinária coreana é muito interessante, pena que não tem pra todo mundo), depois para um bar com a configuração tradicional: bebidas, sinuca, ping pong e karaokê. Com exceção dos nossos guias somente turistas (o que significa somente o nosso grupo), então nada de interessante para comentar sobre o lugar.

Lendo a história de como Kim Jong Il estava tão concentrado na leitura que durante o dia todo não percebeu uma tempestade na rua. (sério).
Lendo a história de como Kim Jong Il estava tão concentrado na leitura que durante o dia todo não percebeu uma tempestade na rua. (sério).

Na manhã seguinte nosso trem de retorno para a China saiu no horário marcado. Praticamente todos estavam destruídos depois de uma noite de festa na Coréia do Norte (nunca pensei que fosse falar isso) então as 5 horas até os limites do país passaram rápido.

Paramos mais uma vez na fronteira e policiais de todas as patentes entraram no trem, a grande maioria bem humorados e fazendo piadas com nosso guia australiano que já é mais do que conhecido por lá. Mesmo processo de vistoria, um deles pegou minha câmera mas não quis ver as fotos, só queria saber se tinha GPS, eu disse que não e pronto.

Os trens na Coreia do norte tem o mesmo nível dos chineses.
Os trens na Coreia do norte tem o mesmo nível dos chineses.

Tudo certo até que um guarda chegou na nossa cabine e apontou para algo na minha mochila. Não entendi o que ele queria e alguém falou “Ele quer que você toque o ukulele”. Comecei a tocar e o policial observou atento, outros que passavam também paravam com um olhar curioso enquanto eu tocava “Ain’t no Sunshine”. E essa foi minha última atividade nesse país doido, tocar Bill Withers dentro de um trem para um policial norte-coreano.

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Seguir Rodrigo Belasquem:

Depois de algumas curtas viagens pela América do Sul achou que 10 dias não eram suficientes para conhecer muita coisa. Largou o emprego e viaja pelo mundo conhecendo lugares, pessoas e fotografando nas horas vagas (que são todas).

15 Respostas

  1. Excelente texto! DIvertido e interessante! Me fez querer voltar a Ásia para conhecer toda essa loucura! Beijos!

  2. Me diverti demais, parabéns pelo post.

  3. Parabéns pelo post, Rodrigo. Sou um entusiasta desse tipo de turismo. Já li algumas coisas sobre a CN. Um relato que me deixou bastante perplexo foi a da jornalista Barbara Demik, no livro “Nada a Invejar”. Mas como desconfiava na época da leitura, os relatos parecem bem “exagerados”. Com seu relato, deu pra ter uma noção mais fiel. Enfim, só vendo e sentido para se ter uma noção desse país que intriga, ainda que seja por motivos nada nobres ou louváveis.
    Parabéns novamente. Saudações.
    Carlos Eduardo Esteves

    • Obrigado, Carlos! Realmente, apesar de obviamente ser uma visão distorcida e maquiada, é o mais próximo que podemos chegar da realidade. Infelizmente nem todos querem mostrar a realidade porque não é tão interessante e aí temos um viés que, mesmo no caso da CN, não ajuda em termos de informação.
      Abraço!

  4. Quando você vez o comentário “mas na Coreia do Norte se o governo diz que resiste você acredita,” acho que talvez nossa realidade não seja muito diferente, ainda tem muita gente por aqui acreditando e esperando alguma coisa do governo.

    Parabéns pela coragem!! Continue com este projeto!

  5. Estava tentando há dias tentando parar aqui para ler toda essa viagem com calma e CA-RA-CA, estou sem palavras, só sei sentir haha. Que país intrigante. Ficaram milhões de questões aqui na cabeça e a imagem das pessoas se divertindo com o pouco que vem de fora. Relato show, obrigada por compartilhar!

  6. E essa foi minha última atividade nesse país doido, tocar Bill Withers dentro de um trem para um policial norte-coreano.

    Vi que parei com o LSD cedo demais…

  7. Tchê, te confesso que fazia um tempo que eu não lia o blog, propriamente. Estava acompanhando pelo Facebook, porque o semestre passado foi tenso. De qualquer forma, tô retomando as leituras dos teus textos e “reinaugurar” com esse da Coreia foi muito tri. Muito bom, mesmo. Abração!

  8. Bala!
    Se puxou no post!

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