Dormindo no chão da montanha

postado em: Eslovênia | 7

Na última segunda-feira fiz checkout no hostel que eu estava em Bled na Eslovênia e sentei na cozinha tentando decidir pra onde ir depois. Minha ideia era Zagreb, capital da Croácia, mas talvez fosse parar por uma noite em Ljubljana ainda na Eslovênia. No fim das contas não foi nem um nem outro.

Gerlitzen
Gerlitzen alpe

Enquanto eu procurava por horários de trens e ônibus recebi uma mensagem no Facebook da Kristiana, uma americana que conheci em Budapeste. Ela estava indo para o sul da Áustria subir uma montanha e perguntou se eu gostaria de ir junto. Uma das coisas que eu queria fazer aqui na Eslovênia era uma boa trilha, como estava a cerca de uma hora de trem da Áustria achei que seria uma boa ideia e marquei de encontrar ela em Villach.

20150512-DSC_6170
Rotas na trilha para o topo do Gerlitzen

Eu não tinha a menor ideia de qual montanha era, quanto tempo levaria ou sequer em qual cidade a trilha começava. Mas a Kristiana há pouco tempo fez uma trilha de 500 Km com a irmã, então eu imaginei que não deveria me preocupar com o fato de não termos uma barraca ou sequer um saco de dormir pra passar a noite. Pelo menos foi o que eu pensei até ela me mandar outra mensagem dizendo que pegou o trem errado e foi parar em Treviso na Itália em vez de Villach na Áustria. Minha guia errou de país, imagina como ela iria nos guiar pelas rotas na trilha.

Não sei como ela fez isso por 500 quilômetros e não sabe pegar um trem.
Não sei como ela fez isso por 500 quilômetros e não sabe pegar um trem.

Apesar dos contratempos cheguei em Villach um pouco depois das 17 horas e fiquei esperando ela na entrada da estação entretido por um cara que me disse que era artista e que a Áustria era um país para onde os velhos viriam para morrer. Depois quase uma hora ouvindo ele falar que adoraria tocar no Brasil, vendo vídeos dele pintando e teorias de mente superior e a relação com templários (!!!) achei que era hora de encontrar internet para descobrir o que estava acontecendo com a Kristiana. Achei uma rede aberta perto da estação e li uma mensagem dela dizendo que ela se enganou no horário e iria sair 18:40 e não 16:40 (e meu nível de confiança nela só aumentando).

Rio Drava in Villach
Rio Drava in Villach

Aproveitei o tempo pra dar uma volta pela cidade e comprar comida. Um pouco depois encontrei ela na estação e finalmente pegamos o trem para Annenheim onde começamos a trilha. Já eram quase 20 horas quando começamos a subir pelo meio da floresta em uma rota muito mais inclinada do que eu esperava que fosse. Caminhamos por cerca de uma hora e procuramos um chão confortável pra dormir a cerca de 600 metros de altura.

A trilha na floresta é praticamente uma escada natural.
A trilha na floresta é praticamente uma escada natural.

Como a floresta é de pinheiros o chão é coberto por uma camada que é quase um colchão natural (não tanto, mas é bom pensar assim quando você vai dormir no chão). Peguei algumas árvores caídas para cercar a área que ficamos e penduramos o que tínhamos de comida em uma árvore um pouco afastada para não sermos visitados por nenhum urso durante a noite. Com todas as roupas que eu tinha, incluindo calça térmica, segunda pele e fleece a noite foi quase agradável.

Hotel Chão - Café da manhã não está incluído.
Hotel Chão – Café da manhã não está incluído.

A sensação de estar dormindo no chão em uma floresta nos alpes austríacos é indescritível. Nenhum vento, corujas piando e o céu estrelado entre as árvores. De manhã a maior sinfonia de pássaros que eu já ouvi enquanto um bando de esquilos pulava de galho em galho. Podia passar o dia ali, mas era hora de continuar já que o topo ficava a quase 2000 metros.

20150512-DSC_6153
Assinando o livro de visitas da trilha.

20150512-DSC_6156

Cerca de duas horas depois começamos a passar por lugares com uma vista que já justificava todo o esforço. De tempos em tempos cruzávamos por alguma estrada que liga a cidade aos resorts que recebem esquiadores durante o inverno. Nessa época tudo parece deserto, exceto por uma ou outra pessoa fazendo manutenção.

DCIM113GOPRO
Pão de ontem com salsicha, Nº 1 de 58 o que comer em Gerlitzen
Com essa vista.

Parecia improvável que fosse melhor, mas depois de 6 horas de caminhada chegamos ao topo e a vista é não só indescritível como impossível de transmitir em uma foto. O problema com trilhas é que na maior parte das vezes, por um motivo ou outro, você não pode ficar tanto tempo no topo. Nesse caso as condições climáticas eram muito boas, mas ainda precisávamos voltar para Annenheim, pegar um trem para Villach e de lá eu pegaria outro trem para Eslováquia e ainda um ônibus para depois caminhar até o hostel onde estavam todas as minhas coisas, mas principalmente um chuveiro e uma cama de verdade.

DCIM113GOPRO
No topo do Gerlitzen.

20150512-DSC_6186

20150512-DSC_6214

Pra baixo todo santo ajuda, menos os joelhos. O santo não está nem aí para os seus joelhos. De qualquer maneira, com a ajuda dos nossos bastões de caminhada adaptados descemos em um pouco menos de 3 horas e pegamos um trem logo depois para Villach. Chegando lá descobri que não haviam trens para Eslováquia até a manhã do dia seguinte. Kristiana não sabia nem pra onde iria, mas também não tinha nenhuma opção. Procuramos por um hostel mas todos estavam lotados e o hotel mais barato era mais de 100 dólares. A solução foi dormir na estação mesmo. Depois de dormir no chão da floresta e caminhar 9 horas em um terreno irregular nada melhor para as suas costas do que passar a noite em um banco de madeira.

Na manhã seguinte cheguei no hostel e mesmo sem ter uma cama pronta tomei o melhor banho do mundo e sentei para esperar liberarem o quarto. O problema é que apareceu um canadense tocando violão, eu peguei o ukulele para acompanhar, logo chegou outra canadense com uma voz incrível e um violão em um formato muito estranho. Pra completar um cara das Ilhas Maurício com mais um ukulele compôs o time e fizemos barulho até quando foi possível.

Depois disso tudo eu finalmente fui descansar e pensando nos últimos dias lembrei que a Eslovênia era um lugar que eu não tinha a menor pretensão de visitar. Não dá pra não pensar em quantas coisas não acontecem porque a gente deixa de ir para algum lugar ou agir em algum momento, mas ao mesmo tempo não posso saber o que teria acontecido se eu tivesse ido direto para a Croácia. Só podemos escolher as coisas uma vez e talvez o mais importante para ser feliz seja valorizar tudo de bom que vem das decisões que tomamos.

20150512-DSC_6165
Pra você que chegou até o final: Um telescópio de madeira.



Compartilhe este post:
Share on Facebook49Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Share on Tumblr0Share on StumbleUpon0Email this to someone
Seguir Rodrigo Belasquem:

Depois de algumas curtas viagens pela América do Sul achou que 10 dias não eram suficientes para conhecer muita coisa. Largou o emprego e viaja pelo mundo conhecendo lugares, pessoas e fotografando nas horas vagas (que são todas).

7 Respostas

  1. Muito lindo!

  2. Adorei o relato, belas aventuras!!

  3. Muito foda, sensacional!

  4. Show de boa.

    Sei que dá trabalho fazer … mas ficaria bem legal uns vídeos curtos falando da experiência.

    Parabéns pela viagem

  5. Fantástico! Bela vida

  6. Marcus Martins

    Simplesmente fantástico. Parabéns.

Deixe uma resposta para Khalil Cancelar resposta