Como aplicar para o Working Holiday Visa na Nova Zelândia – Inscrição Passo a Passo

postado em: Viagem | 41

Se você decidiu que irá aplicar para o Working Holiday Visa na Nova Zelândia, já deve saber que são poucas vagas e muitos interessados. Para ajudar nisso, vou dar aqui todas as dicas que utilizei na minha inscrição para preencher os formulários rapidamente e aumentar as suas chances de sucesso.

 

Moeraki Boulders

As inscrições para o Working Holiday Visa da Nova Zelândia para brasileiros abrirão no dia 22 de agosto de 2017 às 10h (horário da Nova Zelândia), equivalente às 19 horas (de Brasília) do dia 21 de agosto aqui no Brasil. Na dúvida, confira o horário atual na Nova Zelândia para confirmar a diferença de fuso.

 

Se você tem dúvidas sobre o funcionamento do Working Holiday Visa para Nova Zelândia, confira este post.

 

Serão 300 vistos para todos os brasileiros, divididas no modo black friday Casas Bahia – os 300 primeiros que se inscreverem, levam a vaga. Já que este é o modelo, é importante que você esteja pronto para preencher tudo o mais rápido possível e enviar sua inscrição. Veja como será todo o processo de inscrição e algumas dicas para tornar o preenchimento o mais rápido possível.

 

 

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Crie sua conta

A primeira dica é criar seu usuário com antecedência. Apesar de as vagas só abrirem no horário definido, você precisará de uma conta no site da imigração que pode ser feita agora mesmo. Isso vai economizar alguns minutos do seu precioso tempo de inscrição.

 

Para fazer sua conta, vá até https://onlineservices.immigration.govt.nz/registration/default.aspx

Preencha todos os campos. Quando concluir, clique naquele botão azul microscópico no canto inferior direito.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Se você preencheu tudo direitinho, seu usuário foi criado e você poderá agora logar no site da imigração. Não é necessário confirmar nada no email.

Teste seu usuário logando em https://onlineservices.immigration.govt.nz/secure/Login+Working+Holiday.htm

 

Tela Inscrição Working Holiday Visa

Preparando-se para o dia da inscrição

 

Você verá aqui todas as telas que aparecerão para você no dia da inscrição. A minha dica é que você digite em um processador de texto todas as informações que precisará preencher, assim você pode copiar e colar rapidamente (utilizando os atalhos Ctrl + C e Ctrl + V). Se você for oldschool e não curte word ou bloco de notas, pode escrever à mão mesmo. Mas só para lembrar, estamos em 2017.

 

Você precisará pagar a taxa de inscrição depois de preencher todos os campos (caso ainda hajam vagas). O pagamento pode ser feito apenas com Mastercard ou Visa. Recomendo que você tenha pelo menos um de cada. Um dos meus cartões não funcionou no dia da inscrição e eu só consegui com o segundo.

 

Não peça para ninguém tentar preencher para você simultaneamente usando outro computador. O sistema detectera múltiplos logins e você não poderá preencher nada até que uma das sessões desconecte.

 

O sistema vai cair, esteja psicologicamente preparado para isso. São muitas pessoas tentando ao mesmo tempo e o servidor vai abaixo logo nos primeiros minutos. Quando isso acontecer, fique atualizando e aguarde até que o sistema volte, não perca tempo e não desista até ver a mensagem de que não há mais vagas.

 

Todas as telas e o que preencher na sua inscrição

 

Antes de mais nada, um aviso: Minha intenção é que você esteja familiarizado com as telas e possa preparar suas respostas para acelerar o processo e aumentar suas chances. Porém, é sua reponsabilidade ler todo o formulário e preencher as suas respostas de acordo com o que for solicitado. Tenha em mente que, apesar de improvável, é possível que os campos sejam alterados, suprimidos ou que novas perguntas sejam introduzidas. Além disso, eu não tenho dinheiro nenhum, então nem adianta me processar.

 

No dia da inscrição, faça login no link https://onlineservices.immigration.govt.nz/secure/Login+Working+Holiday.htm com o usuário que criamos previamente.

Na tela principal, clique em no link “Working Holiday“, no lado esquerdo.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

Selecione “Brazil” na lista de países e clique em “OK”

 

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Se você chegar nesta página antes do horário programado, você verá a mensagem dizendo que não existem vagas disponíveis. Neste exemplo, estou utilizando a Suécia, mas as telas são exatamente iguais. Portanto, se já as inscrições já estiverem abertas, você pode clicar em “Apply Now“. Se você chegou um pouco antes, recarregue a página ou clique novamente no link anterior.

 

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Agora você está vendo a principal tela da inscrição, onde você colocará seus dados. Ela é composta pelas abas “Personal”, “Health”, “Character” e “Working Holiday Specific”. Note que a aba “Personal” tem 3 itens: “Personal details”, “Identification” e “Occupation Details”.

O ícone com o “x” vermelho ao lado da aba indica que o item ainda não foi preenchido ou contém erros. Um “v” verde indica que tudo está completo nesta aba. Note que o ícone só será atualizado quando você salvar ou mudar de página.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Todos os campos com o asterísco vermelho devem ser preenchidos. Esqueça tudo que não tem asterísco, pois não influenciará suas chances e precisamos economizar tempo.

Seu nome e sobrenome virão preenchidos. Selecione sexo, data de nascimento e país de nascimento.

Seu endereço não será utilizado para nada, por isso preencha da forma mais simples possível.

Selecione “Brazil” em country e desça um pouco mais na página para completar a aba “Personal details”

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Seu endereço de email já estará preenchido.

Responda “Não” para immigration adviser. Se você não sabe o que é, você provavelmente não tem um.

Método de comunicação “email” já estará selecionado.

Responda que “Sim”, possuí um cartão de crédito.

Clique em “Next

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Uma pequena observação: Se você não clicar em save, você perderá as suas informações se (quando) o servidor cair. O problema de clicar em save em todas as telas é que o carregamento das páginas é muito – muito mesmo – lento. Assim, cada vez que você clica save, perde um considerável tempo de preenchimento. Particularmente, acredito que o tempo de preenchimento é rápido quando você já sabe o que responder, portanto recomendo apenas um save quando você terminar de responder as perguntas em “Health“. Infelizmente, você também terá que contar com a sorte.

 

Agora estamos em “Identification”, ainda sob a aba “Personal”.

Insira e repita o número do seu passaporte.

Coloque a data de vencimento do seu passaporte.

Insira outro documento para comprovar a identidade (nunca me pediram, não sei pra que serve). As opções são “Driver License”, “Birth Certificate” ou “National ID”. Escolha um e insira abaixo a data de emissão deste documento.

Não precisamos preencher nada em “Occupation details”, portanto vamos economizar o tempo do carregamento. Suba a página e clique diretamente na aba “Health” em vez de “next”.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

Tela Inscrição Working Holiday Visa
Occupation Details: Não é necessário preencher nada aqui, não perca tempo.

 

Agora que você está em “Health“, sua aba “Personal” deve ter um ícone verde, indicando que tudo está OK. Caso contrário, preencha a página atual e volte para “Personal” para corrigir possíveis erros.

Responda as perguntas sobre a sua saúde. A maioria responderá “Não” para todas, exceto a última.

A última pergunta, após a caixa de texto, diz respeito à ter vivido ou visitado, por pelo menos 3 meses nos últimos 5 anos, um país que não está na lista de baixo risco de tuberculose. Como o Brasil não faz parte da lista, sua resposta vai ser “sim“.

Você está na metade do caminho. Clique “save” para garantir o que já foi digitado e siga para a aba “Character”.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Na aba Character eles querem saber se você é um serial killer ou se você já cuspiu em um policial de alfândega. Se você for uma pessoa de bom coração, responda “não” em tudo e siga para próxima aba sem salvar, porque você não é bandido, mas gosta de viver perigosamente.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Já vai tirando a poeira do seu passaporte, essa é a última aba. Como aqui as respostas são mais chatinhas, vou detalhar:

  1. Você já recebeu um Working Holiday Visa para a Nova Zelândia? Não, né? “Não“.
  2. Você tem grana? “Sim” (Se você quer saber do que eles estão falando, leia este post).
  3. Quando você irá viajar para a Nova Zelândia? Essa informação não serve pra nada, coloque 01 Jan 2018 que é mais rápido.
  4. Você já esteve na Nova Zelândia antes? Não? “Não“.
  5. Se sim, quando? Não temos tempo para perguntas sem asterísco.
  6. Você tem grana para sair da Nova Zelândia quando seu visto acabar? “Sim

SAAAAAAAAVE

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Quase lá! Agora clica em “Submit“, garoto(a). Vai preparando o bolso que nada é de graça nesse mundo.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Não falei? Tire o escorpião digital do bolso e clique em “Pay Now“.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Mais uma tela pra te deixar nervoso. O link para a página de pagamento está perdido ali no meio, em vez de ser um botão. Mas se você já chegou até aqui, não vai ser uma página mal feita que vai te parar. Clique no link que diz “secure payment site“. Ele vai te levar para o sistema que vai subtrair $208 dólares do seu cartão.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Mais uma página inútil. Coloque seu nome e clique “OK” no canto inferior direito.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

Selecione a bandeira do cartão que será utilizado. Se você for esperto, terá nas mãos agora não só o seu cartão, mas também o da sua mãe, do seu vizinho e do seu cachorro. Não arrisque chegar até aqui e não conseguir a vaga porque alguma parte obscura do sistema bancário negou o pagamento. Apesar de, em geral, um cartão de crédito Visa ou Mastercard dever funcionar nesta situação, quanto maior a fauna de cartões disponível, melhor.

 

Tela Inscrição Working Holiday Visa

Coloque os números mágicos, clique em “Pay Now” e dê três pulinhos.

Tela Inscrição Working Holiday Visa

 

Como não aceitaram meu cartão “1111111111”, eu não tenho imagens da próxima tela. Então vou te contar o que aconteceu quando consegui o meu. O pagamento será confirmado e você vai receber um email dizendo que agora precisará fazer um raio-x e enviar para a imigração. Essa é a parte fácil. Se seu pagamento for aprovado você só não receberá o visto se tiver um problema de saúde sério ou mentiu em algo grave no formulário.

 

Parece fácil

Mas não é. Você realmente precisa de um pouco de sorte para conseguir completar tudo. Você perceberá desde o princípio que tudo é muito lento, muitas vezes você termina de preencher e a página fica então carregando por 1, 2 ou 5 minutos. As dicas que eu dei vão te auxiliar, mas o resto é puro acaso. Se você não conseguir a tempo, o único jeito é tentar no próximo ano.

 

Boa sorte e usem os comentários para dúvidas ou para enviar letras de músicas do Amado Batista.

 

 

Como tirar seu Working Holiday Visa para a Nova Zelândia

postado em: Viagem | 33
Vir para a Nova Zelândia com um Working Holiday Visa é uma ótima forma de conhecer o país. É possível custear toda a viagem trabalhando e pode até sobrar uma grana para conhecer outros países se você for econômico. Neste post vou explicar como funciona este tipo de visto e dar algumas dicas para você conseguir o seu Working Holiday Visa para a Nova Zelândia.

 

Mount Cook Village
Mount Cook National Park – Meu primeiro local de trabalho na Nova Zelândia

Conteúdo

7 dias sem falar – Meu curso de meditação na Tailândia

postado em: Tailândia | 9

Meditar não estava nos meus planos de viagem. Lembro vagamente de, em algum momento, nos primeiros meses de viagem, ter uma conversa onde me falaram sobre retiros nos quais as pessoas não falam absolutamente nada por dias. Eu imaginei que se alguém não era doido na entrada pelo menos seria quando saísse. Um ano depois eu mesmo entraria numa fria dessas.

 

Meditando em Doi Suthep
Meditando no quarto em Doi Suthep.

 

Enquanto estava na Ásia conheci várias pessoas que foram para um retiro com o objetivo de meditar, também li mais sobre isso na internet e, invariavelmente, os relatos eram extremamente positivos. Até mesmo quem desistiu no meio do caminho recomendou tentar.

Eu nunca meditei e meus conhecimentos sobre o assunto eram muito superficiais. O que eu sabia é que era benéfico e que não era necessária nenhuma experiência prévia para participar de um desses retiros. Quando estava em Mianmar, viajando há mais de um ano e em vias de vir para o Brasil, decidi que era a hora de experimentar.

 

Um dos altares no templo de Doi Suthep.
Um dos altares no templo de Doi Suthep.

 

Pesquisando cheguei até a página de um centro de meditação que ensina uma técnica chamada Vipassana. O curso é grátis e você faz uma doação no final dentro das suas condições, sem pressão nenhuma. Já as restrições assustam um pouco.

Durante os dias no centro você não deve:

  • Utilizar seu telefone ou qualquer outro eletrônico;
  • falar;
  • ler, escrever ou desenhar;
  • ouvir música;
  • se exercitar;
  • comer depois das 12 horas (carne nunca);
  • fumar ou consumir bebidas alcoólicas;
  • matar qualquer coisa, inclusive mosquitos e formigas.

 

Todos nós estamos tão acostumados a estarmos ativos o tempo todo que quando a bateria do celular acaba fica aquela sensação de que você perdeu um braço (tá! Dei uma exagerada.). Não comer do meio-dia até o dia seguinte parecia estranho também, mas achei que se alguém tivesse morrido disso eles não estariam oferecendo o curso, então me inscrevi para o de 7 dias com um misto de curiosidade e frio na barriga.

 

Naga Stairs: O acesso ao templo
Naga Stairs: O acesso ao templo.

 

O centro de meditação fica no templo de Doi Suthep, um dos mais famosos da Tailândia situado em uma montanha a quinze quilomêtros de Chiang Mai. O e-mail com as instruções me dizia para estar lá entre 12 e 14 horas e, chegando no meio do dia, o primeiro desafio foi subir a escadaria de acesso ao templo com tudo que eu tinha. Para contextualizar, fazia 41 graus em Chiang Mai.

Cheguei suando na recepção do centro e vi várias pessoas vestindo branco sentadas à esquerda da entrada. Tenho que confessar que uma das minhas dúvidas era “Que tipo de maluco, além de mim, vem para um lugar desses?”, mas nos dois segundos que olhei todos pareciam bem normais.

 

Acesso aos quartos em um dos prédios
Acesso aos quartos em um dos prédios.

 

Recebi as chaves e as instruções de ir até o meu quarto e voltar às 14:30, todo de branco, para receber as primeiras lições. A exigência das roupas é, como todas a outras, para que não existam distrações e que o foco seja só você mesmo. Voltei no horário marcado, vestido adequadamente para um réveillon, e encontrei um monge me esperando sorridente. Em alguns minutos ele me ensinou as técnicas básicas para meditar sentado e andando. Até algumas semanas antes eu nem sabia que era possível meditar e caminhar simultaneamente, mas o monge manja, né?! Ele me disse para alternar entre os dois modos, 15 minutos em cada.

Menos de duas horas depois era o momento da cerimônia de iniciação. Nada muito complicado, mas dessa vez me deram um papel com uns cânticos para acompanhar o monge. Algo como o seguinte:

 

 

atha kho rājā pasenadi kosalo uṭṭhāyāsanā ekaṃsaṃ uttarāsaṅgaṃ karitvā yena bhagavā tenañjaliṃ paṇāmetvā tikkhattuṃ udānaṃ udānesi namo tassa bhagavato arahato sammāsambuddhassa, namo tassa bhagavato arahato sammāsambuddhassa, namo tassa bhagavato arahato sammāsambuddhassā

 

Entendeu? Não?! Nem eu!

Mas aos trancos e barrancos foi e, concluída a cerimônia, recebi a programação para os dias que ficaria lá:

 

  • 05:00 – Início do dia
  • 05:30 – Dhamma Talk
  • 07:00 – Café da Manhã
  • 08:00 – Meditação
  • 11:00 – Almoço
  • 12:00 – Meditação
  • 13:30 – Encontro pessoal com o professor
  • 14:00 – Meditação
  • 18:00 – Cânticos
  • 19:00 – Meditação
  • 21:00 – Fim do dia

 

Com todas as pompas cerimoniais concluídas fui para a maior sala do centro meditar. Eu achei que sem distração nenhuma seria fácil controlar a mente e focar na respiração, conforme orientou o monge. Ingenuidade minha. Se você não tem estímulos externos o cérebro se encarrega de criar alguma coisa e logo você está divagando. À ideia é você mentalmente falar “rising” e “falling”, algo como “subindo” e “descendo”, seguindo os movimentos do seu abdomen. Parece fácil, mas meus pensamentos eram mais ou menos assim:

 

_ Rising, falling, rising, falling… Acho que eu sentei meio torto, será que quem medita muito fica com problema de coluna? Imagina meditar a vida toda… Será que os monges assistem Game of Thrones?! Não posso esquecer que tenho que procurar um dermatologista. Quantos anos será que vive uma lagosta? Putz!!! Rising, falling, rising, falling…. Será que ainda passa Bob Esponja na TV?

 

Sim, foi assim o tempo todo. Obviamente a concentração foi melhorando com o passar dos dias, mas longe de ser possível se concentrar somente no que deveria por muito tempo. Segundo o professor isso é esperado, para algumas pessoas 20% de concentração e 80% de viagem total é normal no começo.

 

Sala principal onde encontrávamos o monge/professor.
Sala principal onde encontrávamos o monge/professor.

 

Os cânticos das 18 horas eram basicamente as mesmas palavras sem nexo do começo, mas agora por quarenteicincominutos! Eu achei que seria um terror, mas depois de um tempo comecei a achar uma das horas mais legais do dia. Segundo o monge essa parte é muito boa para concentração, pela dificuldade, e é verdade. Se você se distrair no meio de um sammāsambuddhassa não se acha mais na música.

 

Sala de Meditação: Vários tapetes para meditar caminhando e almofadas para sentar.
Sala de Meditação: Vários tapetes para meditar caminhando e almofadas para sentar.

 

O ponto negativo das 18 horas é que este é o momento que seu corpo está avisando que já passou muito da hora de comer alguma coisa. Felizmente não dura muito tempo, em algum ponto seu cérebro desiste de avisar porque sabe que você não vai comer nada mesmo.

Dormir não é difícil. Cada um tem o seu próprio quarto, bem simples, só uma cama e algumas almofadas para você usar se quiser meditar lá. Não tem nem um ventilador, mas como é em uma montanha não é difícil durante a noite. O sono não é um problema porque meditar cansa e você tem que acordar 5 horas da manhã.

A manhã começa com o monge falando por uma hora sobre o assunto que ele escolhe para o dia, esse momento é chamado de Dhamma Talk. Em geral ele fala sobre a necessidade de equilíbrio na vida, de como alguns problemas simples podem ser solucionados se você conhecer a si mesmo e utiliza vários exemplos de vida para explicar seus pontos. Não existe nenhuma espécie de pregação religiosa, nenhuma sugestão de que você deve virar budista, pelo contrário. Os conceitos budistas sempre são utilizados como referência, mas ele faz questão de dizer que você deve manter a sua religião (ou não religião) e fazer o bem.

 

Cada telhado é um alojamento, divididos em masculino e feminino.
Cada telhado é um alojamento, divididos em masculino e feminino.

 

O café da manhã não tem suco, não tem frutas, não tem café. Nos dias que eu estive lá era sempre noodles ou arroz. O do primeiro dia era um macarrão fininho em um caldo que parecia uma gelatina. O almoço era quase a mesma coisa, mas em geral tinha arroz e umas duas opções de vegetais em algum caldo misterioso. A fome é algo que você acostuma depois de dois dias, continua sendo chato, mas não é o pior.

 

 

Nos primeiros dias eu meditei por umas 5 horas, mas chega uma momento em que você não aguenta mais meditar. Você também já está cansado de olhar para as árvores. As outras 15 pessoas que estão lá provavelmente querem falar com você tanto quanto você quer falar com elas, mas todos tem que ficar de bico fechado. E aí vem o tédio.

Em casa você lê um livro, você abre o Facebook, você ouve música ou joga Candy Crush. Lá você olha pra parede, não nada para distrair a mente (o que é o objetivo, obviamente). Depois de 5 dias assim eu já não tinha tanta animação para meditar. Não cheguei a pensar em sair em nenhum momento, mas fiquei feliz de ter decidido ficar por apenas 7 dias.

 

Monges no Buddha Day
Monges no Buddha Day.

 

Em um dos dias que estive lá era o dia de Buda. Nesta noite, em vez dos cânticos fomos até o templo participar da cerimônia com os monges e isso foi surreal. Infelizmente não tenho fotos (aparentemente fotografar naquele momento não era um problema, mas eu simplesmente não fiz), mas a atenção para os detalhes de todos que estavam participando dançando ou tocando era impressionante. No final cantamos em frente à principal área do templo e observamos os monges conversando algo que foi impossível compreender, já que nem boa noite eu sei dizer em tailandês.

 

A entrada do centro de meditação em Doi Suthep
A entrada do centro de meditação em Doi Suthep.

 

Quando o sétimo dia chegou encontrei outros dois alunos na saída do templo. Foi estranho finalmente ouvir a voz deles, saber os nomes e conversar sobre a comida, sobre as dificuldades e as coisas divertidas. Eu não saí de lá outra pessoa, não foi um choque, não foi tão difícil e também não foi fácil. Mas, definitivamente, foram dias inesquecíveis e eu fiquei muito feliz de ter vivido esta experiência.

Se você quer fazer o mesmo e tem dúvidas deixe sua pergunta nos comentários.

 

Dia 365 de 365

postado em: Viagem | 21

Há exatamente um ano, no horário que este post foi ao ar, eu estava no Aeroporto do Galeão, no Rio, escrevendo o post Dia 0 de 365 enquanto esperava meu voo para Amsterdã. O dia 365 chegou e não é o último. Eu estou na Malásia, de cabeça para baixo em comparação com o Rodrigo do dia 6 de março de 2015 e sem vontade de parar de viajar.

 

Brasil em 2015 - Malásia em 2016
Brasil em 2015 – Malásia em 2016 (Google Earth).

 

Eu lembro exatamente de onde estava e o que eu estava pensando enquanto traçava as linhas em uma mapa de possíveis destinos. A propósito, considerando-se que eu não tinha nada planejado de fato, eu até cheguei mais ou menos perto do roteiro. De fato vários fatores me fizeram alterar os destinos: Preços de passagens, pessoas que eu conheci, pessoas que eu queria encontrar, clima, preguiça e falta de planejamento, claro.

 

O caminho que eu pensei em fazer.
O caminho que eu pensei em fazer.
O caminho que eu realmente percorri,
O caminho que eu realmente percorri.

 

Um ano pode parecer muito tempo para se estar viajando. Algumas pessoas que encontrei pelo caminho de vez em quando me mandam mensagens perguntando “Você ainda está viajando? Nossa…”. A verdade é que mal deu pra perceber o tempo passando nos 28 países e não sei quantas cidades por onde passei. Só fica claro quanta coisa aconteceu quando eu relembro as pessoas que conheci, coisas que fiz pela primeira vez e da histórias que eu não poderia imaginar.

Pensei em escrever sobre como viajar afeta nossa visão do mundo e das pessoas, ou como uma pessoa que viaja sozinha por tanto tempo se sente. Mas a verdade é que cada um desses tópicos daria um post inteiro, e ainda não é o fim da viagem (que nem sei quando será). Vou guardar estes assuntos para o futuro.

Na verdade quero que este post seja tão sucinto (ou leve, se não for curto o suficiente) quanto foi o primeiro, então vou apenas contar, através de fotos, como foram estes 365 dias de viagem.

 

Tudo que eu precisei sempre esteve nesta mochila (ou pendurado nela). Obviamente tive que trocar várias roupas ao longo do caminho, mas essa camisa azul é guerreira e já viajou bastante. Inclusive eu nem sabia que ela já tinha sido tão azul assim.

 

Em Montenegro, preparado (ou quase) para um acampamento.
Em Montenegro, preparado (ou quase) para um acampamento.

 

A dificuldade é evitar carregar coisas demais, mas ter o suficiente para as estações. Eu sou tão bagunçado que consegui em um ano pegar dois invernos e dois verões.

 

Todo lugar é o igual: no inverno você quer verão.
Todo lugar é o igual: no inverno você quer verão.
E no verão você quer... Ah, não! mais verão.
E no verão você quer… Ah, não! mais verão.

 

Dormir algumas vezes é um desafio, mas com o nível certo de sono até pedra vira colchão.

 

Dormindo em um barco
Cochilando durante uma viagem de 7 horas nas Filipinas. Os bancos são de madeira e em alto mar você vira um peão de Barretos.

 

Eu tive a oportunidade de visitar lugares incríveis. Alguns deles eu nunca imaginaria ver com meus próprios olhos e que mesmo lá não pareciam reais.

 

Maya Bay, na Tailândia. Várias cenas do filme "A Praia" foram gravadas aqui.
Maya Bay, na Tailândia. Várias cenas do filme “A Praia” foram gravadas aqui.

 

E outros lugares que muita gente nem acredita que eu fui.

 

Na Coreia do Norte posando com as estátuas dos Kims.
Na Coreia do Norte posando com as estátuas dos Kims.

 

Claro que tirei muitas fotos. Nem sempre sendo responsável.

 

Em Split, um pouco antes de ser expulso da torre por ter saído pela janela.
Em Split, um pouco antes de ser expulso da torre por ter saído pela janela.

 

E claro que várias delas são selfies.

 

Selfie! Selfie! Selfie!

 

Mas o pôr do sol deve ser o campeão nos meus arquivos.

 

Fim do dia no Camboja.
Fim do dia no Camboja.

 

Um horário que várias vezes eu compartilhei com minha câmera e, para a tristeza dos eventuais companheiros de viagem, meu ukulele.

 

Pôr do sol na Tailândia.
Pôr do sol na Tailândia. “Vou tocar um Jack Johnson”.

 

E os companheiros não foram poucos. Desde amigos que me acompanharam por semanas até companhias interessantes de minutos que provavelmente nunca encontrarei outra vez.

 

Compartilhando um táxi da Albânia até a fronteira com a Macedônia.
Compartilhando um táxi da Albânia até a fronteira com a Macedônia.

 

Tentei fugir da viagem convencional trabalhando como voluntário em alguns países.

 

Limpando uma antiga estação de trem na República Checa.
Limpando uma antiga estação de trem na República Checa.

 

Hvar - Croácia.
Morei nesta ilha Croata por quase 3 meses voluntariando em um hostel.

 

Trabalhar como voluntário foi o que mais me aproximou dos locais nas cidades que estive. Não só aprendi e me diverti muito, também consegui me motorizar com a ajuda de amigos.

 

Muita pressão psicológica no trânsito com essa Harley Kitty.
Muita pressão psicológica no trânsito do Vietnã com essa Harley Kitty.

 

Quase todo lugar tem alguma peculiaridade com transporte.

 

Tuk-Tuks e suas variações estão por toda parte na ásia.
Tuk-Tuks e suas variações estão por toda parte na ásia.

 

três pessoas em uma moto
Uma moto para três nas Filipinas. Depois de ver algumas famílias com 6 pessoas em uma, 3 parece até normal.

 

Mas se você quiser carona, quase todo lugar funciona do mesmo jeito: Dedo pra cima e paciência.

 

Pedindo carona para um lugar que não consigo ler o nome.
Pedindo carona para um lugar que não consigo ler o nome na Macedônia.

 

Viajar de carona é uma ótima maneira de se conhecer pessoas, mas você realmente pode fazer amigos em qualquer lugar.

 

Conheci parte deste pessoal na rua e acabei indo jantar em uma associação taoísta em Macau. Até a cerveja era vegetariana.
Conheci parte deste pessoal caminhando na rua e acabei indo jantar em uma associação taoísta em Macau. Até a cerveja era vegetariana.

 

Claro que, se você bebe, uma cervejinha é o método internacionalmente reconhecido pela ONU de se fazer amigos.

 

Neste bar em Koh Phi Phi você pode tomar uma cerveja ou lutar com os seus amigos. Talvez os dois ao mesmo tempo.
Neste bar em Koh Phi Phi você pode tomar uma cerveja ou lutar com os seus amigos. Talvez os dois ao mesmo tempo.

 

E pode ter certeza que tem cerveja em todo lugar.

 

No alto do Parque Nacional Durmitor, em montenegro você não vai encontrar nada. Exceto um pastor de ovelhas vendendo cerveja no caminho para o topo da montanha.
No alto do Parque Nacional Durmitor, em Montenegro você não vai encontrar nada. Exceto um pastor de ovelhas vendendo cerveja no caminho para o topo da montanha.

 

Não só de álcool se fazem reuniões alegres. Uma boa refeição com amigos também é um ótimo momento, principalmente quando eles te avisam com antecedência se você vai morrer ou só chorar por causa da pimenta.

 

Chorei muito no Vietnã, mas não de tristeza, pela pimenta mesmo.
Chorei muito no Vietnã, mas não de tristeza, pela pimenta mesmo.

 

Claro que sempre existe a opção de uma comida leve.

 

Comendo escorpião na Tailândia. Típica atividade de turista.
Comendo escorpião na Tailândia. Típica atividade de turista.

 

Além da diversão, viajar é a melhor maneira de aprender história com quem realmente viveu a história.

 

Bata contando como escapou da Bósnia durante o cerco de Mostar.
Bata contando como escapou da Bósnia durante o cerco de Mostar.

 

Onde não existe ninguém para contar, ainda é possível ver e tocar.

 

Angkor Wat, no Camboja.
Angkor Wat, no Camboja.

 

A cultura você pode ver de perto. Algumas vezes perto demais.

 

Festival vegetariano que deveria se chamar Festival da bochecha furada, mas quem sou eu pra sugerir nomes para um cara com um fuzil na boca. Deixa pra lá.
Festival vegetariano em Phuket, Tailândia. Deveria se chamar Festival da bochecha furada, mas quem sou eu pra sugerir nomes para um cara com um fuzil na boca, né?! Deixa pra lá.

 

Desfile da independência em Macau.
Desfile da independência em Macau.

 

Comemoração do nascimento de Mohammed nas ilhas Gili, Filipinas.
Comemoração do nascimento de Mohammed nas ilhas Gili, Indonésia.

 

Você também se depara com pequenas coisas que se tornam mais interessantes do que atrações turísticas.

 

Futuro casal filipino sendo fotografado.
Futuro casal indonésio sendo fotografado.

 

E até o banheiro evidencia algumas diferenças.
Até o banheiro evidencia algumas diferenças culturais.

 

Mas mesmo em lados opostos do mundo algumas coisas são iguais.

 

Alunos sem professor em uma escola nas Filipinas.
Alunos sem professor em uma escola na Indonésia.

 

Os jovens asiáticos são muito desinibidos para pedir fotos com turistas, mas foi na China que eu me senti famoso: teve até fila para tirar selfie.

 

Os jovens asiáticos são muito desinibidos para pedir fotos com turistas, mas foi na China que eu me senti famoso: teve até fila para tirar foto.
Mais selfie! Mas essa é na Malásia.

 

Isso é só um pouco do que fiz em um ano. Pode parecer muito, mas não é nada. É só uma parte infimamente pequena do que o mundo tem a oferecer. Existem milhares de paisagens de tirar o fôlego, bilhões de pessoas com historias interessantes e uma infinidade de experiências esperando para serem vividas. Não dá pra parar agora. Quer vir junto?

 

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Vou ali no mundo e já volto.

 

Natal na Coreia do Norte

postado em: Coreia do Norte, Viagem | 15

Eram cerca de 15h quando nosso trem parou para a última inspeção na saída da Coreia do Norte, a apenas um quilômetro da fronteira com a China. Eu já tinha separado minha câmera e o celular para os policiais verificarem, mas o oficial de uniforme impecável que entrou na nossa cabine apontou indicando que queria algo da minha mochila.

As estatuas dos Kims
As estátuas dos Kims.

Ir para a Coreia do Norte foi algo que eu considerei desde o começo desta viagem. Um país cheio de peculiaridades governado por líderes excêntricos e cercado de mitos, ou não, mas isso eu queria ver com meus próprios olhos. Mas como passar três dias lá custa o mesmo do que três semanas em países como Vietnam e Camboja eu tinha deixado a ideia de lado.

Por acaso vim parar na China e resolvi conferir de novo os preços na companhia que achei mais interessante. Vi logo estampado no site “Faça parte do primeiro grupo de turistas a passar o natal na Coreia do Norte”. Passar o natal em um país que reprime qualquer manifestação religiosa?! Claro, por que não?!

O visto para Coreia do Norte
O visto para Coreia do Norte.

Dia 23 chegou e logo eu estava em uma viagem de trem de 15 horas de Pequim até Dandong, nos limites da China. Já com visto na mão (que é só um papel azul) e um bilhete de trem escrito à caneta embarcamos no trem cheio de norte-coreanos. Talvez você esteja surpreso, como eu fiquei, de saber que alguns deles podem viajar (cerca de 15 mil vão para os exterior todo ano). Obviamente os que podem viajar em geral tem uma vida confortável o suficiente para não pensar em fugir. Os que sofrem não têm liberdade nem para viajar dentro do país e precisam de autorização para tal.

Um sistema meio caótico onde você entra no trem, saí e entra de novo causava um certo tumulto. Especialmente porque os norte-coreanos aproveitam a ida a China para voltar cheios de mercadorias e fazer uma grana extra (comunismo what?). Mas enfim todos nos seus lugares, em poucos minutos atravessamos a ponte e finalmente estávamos na Coreia do Norte. Aí entram vários policiais, alguns vendo passaporte, outros perguntando sobre câmera e celular.

Existem algumas limitações na entrada, sem lentes grandes nas câmeras, livros ou filmes sobre a Coreia do Norte não são bem vindos (incluindo guias de viagem), pornografia também não e livros religiosos (bíblia, alcorão e afins) até podem entrar, mas eles vão querer ter certeza de que você vai voltar com eles. Eu já sabia disso e estava esperando uma busca meticulosa, mas somente um policial olhou minha câmera, passou 30 segundos tentando ligar para descobrir que eu não tinha foto nenhuma. Outro policial achou um gif de um pênis girando (pois é, não me pergunte) no Weechat de uma menina e só deu risada. Os policiais que checaram um laptop se divertiram por alguns momentos com um audiobook de Harry Potter (o segundo, não lembro qual é). E foi isso. Considerando que vistos para a Coreia do Norte raramente são negados (exceções para sul-coreanos e em geral para jornalistas) e que o processo de inspeção é tranquilo eu diria que é mais fácil entrar lá do que nos Estados Unidos.

Paisagem da área rural vista do trem.
Paisagem da área rural vista do trem.

 

Com tudo certo o trem começou a avançar devagar. Ainda teríamos cinco horas até a capital Pyongyang e no começo todos estavam colados nas janelas tentando ver finalmente como era o país por dentro. Primeiro alguns prédios, um parquinho abandonado e depois campos e mais campos cobertos de neve. As pessoas iam de um lado para outro nas suas bicicletas, mas não consegui identificar de onde para onde tanta gente se movia. Carros eram raros e vi tantas motos quanto galinhas (e eu poderia contá-las em uma mão). Lembro exatamente que vi três bois no caminho, todos puxando carroças. Pela paisagem fica claro que a população depende muito do que planta e com temperaturas quase constantemente negativas o inverno deve ser um período muito difícil para eles.

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Depois de algum tempo a paisagem foi ficando repetitiva e quase todos perderam o interesse no exterior. Felizmente nossos guias australianos estavam ali e de tempos em tempos alguns assuntos interessantes sobre Coreia do Norte surgiam e muita coisa do que eu não vi lá descobri conversando com esses caras que já tem centenas de dias de Coreia no currículo.

Já era noite quando chegamos na estação de Pyongyang. As portas se abriram e com os olhos ainda acostumando com a diferença entre as luzes do interior do trem e as da estação só senti o frio que fazia na plataforma antes de ver qualquer coisa. Levou um segundo ou dois para eu perceber que a verdade era que não tinha luz nenhuma, era o primeiro blackout da viagem: “Bem-vindo a Pyongyang”. Em algum lugar uma musiquinha macabra tocava e a única luz da estação iluminava uma imagem de Kim Il-Sung (ou do filho dele, não prestei atenção). Nossos guias norte-coreanos já nos esperavam e de ônibus fomos em direção ao hotel enquanto a guia mais velha, muito simpática, explicava como seria nosso tour.

Mesmo durante a noite deu pra perceber que o hotel era imponente para um país como este. 47 andares com um restaurante giratório no topo. Na recepção uma TV sintonizada na emissora nacional (porque é a única opção) exibia cenas de sucesso do país nos esportes, todas em preto e branco alternando às vezes com aquele colorido desbotado dos anos 80. Recebemos a boa notícia de que teríamos água quente 24 horas (em geral é só por uma hora de manhã e uma hora à noite) e todos foram para seus quartos se preparar para o jantar. No elevador o andar pula do 4º para o 6º, falamos um pouco sobre o secreto 5º andar e continuamos subindo.

Moderno sistema no quarto do hotel.
Moderno sistema no quarto do hotel.

Estava dividindo meu quarto com um inglês e quando abrimos a porta o quarto pareceu bem normal e espaçoso. A única coisa que parecia não pertencer ao lugar era uma espécie de rádio gigante que não sintonizava nada e um telefone que possivelmente é mais velho que eu (e olha que eu assistia Machete).

Pyongyang à noite.
Pyongyang à noite.

Pela janela do 38º andar Pyongyang parece uma cidade normal, exceto pelo assustador baixo número de carros nas ruas. A iluminação fora do centro também é básica, mas vendo a foto poderia ser qualquer lugar na Ásia.

Nos avisaram novamente algo que já sabíamos “Vocês não podem sair do hotel”. Então jantamos e começamos a circular por tudo que havia no hotel: as lojas, sinuca, karaokê, boliche, ping pong e o restaurante giratório no topo. O hotel de 1000 quartos tinha como hóspedes apenas o nosso grupo e mais uns gatos pingados, então éramos os únicos em tudo. No restaurante do topo só ligaram o motorzinho pra girar quando fomos tomar uma cerveja de 5 reais.

Natal no Karaokê do hotel
Natal no Karaokê do hotel.

Em algum momento 4 de nós resolvemos explorar o quinto piso que supostamente seria uma área de controle de segurança, mas vai saber né. Primeiro o elevador só ia até o oitavo andar, caminhamos pela escada até o quinto mas a porta estava lacrada. O sexto estava aberto e começamos a andar pelos corredores, vários deles com propagandas que não imagino o que dizem e encontramos uma das portas abertas. Melhor do que eu tentar explicar é mostrar a foto abaixo. Saímos logo dali e voltamos para beber no karaokê que era mais seguro e divertido. E afinal era noite de natal.

Um dos quartos abandonados do hotel.
Um dos quartos abandonados do hotel.
Eles não manjam muito de decoração na Coreia do Norte.
Eles não manjam muito de decoração na Coreia do Norte.

Na Coreia do Norte não tem natal. Religiões não fazem parte da vida das pessoas em um país onde só se idolatra os líderes. Portanto, com exceção de uma árvore de natal sem decoração no nosso hotel, não havia qualquer outra referência ao dia.

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Na manhã seguinte saímos cedo para conhecer Pyongyang. Observar a movimentação da cidade alheia aos nossos olhares na janela do ônibus foi uma das coisas mais interessantes dessa visita. Eu imaginava um lugar cinza com pessoas cabisbaixas andando com suas caras fechadas pela rua, mas acredite ou não, a rotina é (aparentemente) bem normal. Lembro claramente do rosto de uma mulher rindo muito enquanto caminhava ao lado de um homem que aparentava a mesma idade. Algumas pessoas conversando na calçada, crianças brincando.

Pyongyang parece até um lugar normal vista de longe.
Pyongyang parece até um lugar normal vista de longe.

Nossa primeira visita foi às estatuas de Kim il Sung e Kim jong Il, os falecidos amados (?!) líderes norte-coreanos. Antes da chegada recebemos as instruções: Quem quiser depositar flores em frente à estátua é bem-vindo. Em seguida vamos fazer uma reverência (sim, tivemos que fazer isso). Com relação as fotos, somente pegando as duas estátuas de corpo inteiro. Vai entender…

Kim Il Sung e Kim jung Il estão por toda parte.
Kim Il Sung e Kim jung Il estão por toda parte.

As estátuas de bronze de 22 metros já podiam ser vistas do caminho que levava à área central da praça. Paramos um pouco antes porque militares estavam limpando a área e organizando as coroas de flores. Como fotos de militares são “No No” ficamos ali uns 10 minutos esperando o pessoal terminar o serviço. Aliás, aproveitando para abrir um parêntese sobre militares, a ampla maioria que vi estavam com um pá cavando buracos, carregando cimento em obras ou em volta de trens. Militares com armas provavelmente estavam dormindo nesse dia.

Entre um e outro ponto turístico nossa guia nos falava das maravilhas da Coreia do Norte. Alguns exemplos foram os apartamentos modernos que são de graça e para “as pessoas normais”, a não existência de impostos no país e que famílias que têm trigêmeos recebem uma medalha de ouro (?) e vários presentes do governo.

Grand People's Study House - A enorme biblioteca com livros escondidos.
Grand People’s Study House – A enorme biblioteca com livros escondidos.

Paramos na Grand People’s Study House, uma biblioteca imensa e realmente muito bonita por fora. Supostamente o prédio tem capacidade para armazenar 30 milhões de livros, mas só vimos uns 2 mil. A maioria deles não está em exposição e vêm por uma esteira através de um buraco na parede quando você solicita à bibliotecária. Obviamente o acervo é bastante limitado e a grande maioria dos livros solicitados são de autoria de um dos Kims.

Alguém nos esperava logo depois da porta: uma espécie de recepcionista/guia que explicou tudo sobre o lugar em coreano enquanto nossa guia traduzia. E isso foi muito estranho porque logo depois percebi que essa recepcionista falava inglês fluente. Só mais uma coisinha sem explicação.

A moderna sala de Apreciação musical com VHS
A moderna sala de Apreciação musical com VHS.

 

E claro, o moderno toca fitas double deck com CD player embutido.
E claro, o moderno toca fitas double deck com CD player embutido.

Além da parte de leitura conhecemos minha área favorita da visita: a sala de apreciação musical. Eu esperava alguns instrumentos mas o que vi foram dezenas de toca-ficas com CD-Player enfileirados ao lado de diversos televisores com VHS integrado. Algumas pessoas olhavam atentas para a tela e tinha até alguém fazendo anotações. No fundo da sala um dos diversos computadores disponíveis estava ligado e a tela exibia um sistema com cara de 1995. Aliás, o lugar todo tinha cara de 1995.

Atualizando o Facebook.
Atualizando o Facebook.
Me lembra um emulador de Super Nintendo.
Me lembra um emulador de Super Nintendo.

O trânsito é muito tranquilo, somente na área central existe uma quantidade razoável de carros e para controlá-los existem guardas de trânsito como em qualquer outra cidade. Bom… quase. Os guardas do sexo masculino são normais, mas as mulheres que fazem o mesmo serviço se movimentam de uma maneira bizarra. Elas movem o pescoço como robôs e giram o corpo como se as articulações fossem eixos muito limitados. 

À tarde fomos em um museu nada interessante. As luzes foram sendo acendidas quando chegamos. Aparentemente os locais não se interessam tanto pelo lugar e por mais que eu fosse fã dos Kims eu também não me interessaria, mas mais uma vez foi divertido ver como as pessoas que trabalhavam lá se divertiam com as piadas que nossos guias (australianos, não os guias coreanos faziam). Sorriam muito e alto, especialmente quando era algo do tipo “Quer casar comigo?”.

Estátuas na Torre Juche.
Estátua na Torre Juche.

Nos relatos que li antes da viagem os autores sempre diziam que os guias coreanos eram bastante rígidos e não deixavam você se afastar, prestavam muita atenção as fotos, etc. A verdade é que os nossos estavam tão tranquilos que por vezes até perderam pessoas de vista. Depois do museu caminhamos sobre o rio e nossa fila ficou longa para nossos guias. Por um momento eu estava andando sozinho pelas ruas de Pyongyang e se quisesse pegar uma das esquinas e me perder por lá poderia (só faltou um motivo para querer).

Caminhando em Pyongyang.
Caminhando em Pyongyang.

Nosso guia mais jovem, Yun (não é o nome verdadeiro), tinha um inglês bom o suficiente para uma conversa longa, mas falava tão baixo que era difícil compreender tudo sem prestar bastante atenção. Só uma característica pessoal, não coreana. Yun cursou geologia em Pyongyang, disse que a paixão dele é areia, terra e rochas, mas os pais queriam algo mais promissor e insistiram que ele tentasse uma carreira como guia. Com 33 anos ele acabou de ser pai de um menino, que segundo ele vai ser o único. Mesmo morando em Pyongyang ele não vai para casa na maioria das noites. Os guias têm que ficar o tempo todo próximos dos turistas. Yun iria ficar quase uma semana sem ver o filho que estava a um quilômetro do nosso hotel.

Nossas conversas eram bem normais. Um diálogo enquanto esperávamos o ônibus seguir para o próximo ponto foi mais ou menos assim:

Yun: “Você acha as coreanas bonitas?”
Rodrigo: “Sim, vi algumas bonitas. E você o que acha?” (realmente vi, não estava tentando ser legal)
Yun: “Sou casado, não posso mais ficar olhando muito (risos)”
Rodrigo: “Olha aquela lá. É bonita”
Yun: “Ah! Não vi. Olha pra cá de novo… (mais risos)”
Yun: “No museu da guerra tem uma guia que é muito bonita. Pena que eu sou casado…”

 

Obviamente não puxei nenhum assunto sobre política que pudesse ser constrangedor. Quase tudo era pessoal. Ele mostrou fotos da família dele, eu mostrei da minha. Perguntei se ele viajava para as montanhas, se sempre morou em Pyongyang, etc. O que me surpreendeu foi a pergunta dele quando chegamos ao metrô.

Estação de Metrô de Pyongyang.
Estação de Metrô de Pyongyang.

O metrô de Pyongyang em tese é o mais profundo do mundo, o de São Petersburgo também diz ser. Seja como for já fui nos dois e são realmente muitos metros de escada até chegar no nível dos trens. Enquanto falávamos sobre isso Yun me disse que, em tese, as estações podem resistir à bombardeios devido à essa profundidade. E então ele me perguntou com um tom de quem realmente está curioso por uma opinião externa:

“Você acha que realmente poderia resistir à um bombardeio?”

 

Pode parecer uma pergunta besta, mas na Coreia do Norte se o governo diz que resiste você acredita, mas Yun talvez não acredite tanto assim. Se você gosta de teorias da conspiração pode pensar agora que Yun é algum tipo de espião querendo encurralar estrangeiros com perguntas desse tipo.

Monumento do Partido. Não preciso dizer qual partido porque só tem um mesmo.
Monumento do Partido. Não preciso dizer qual partido porque só tem um mesmo.

Li muito sobre estas “armações” antes da viagem também, bem como crianças bonitinhas que falam inglês colocadas no caminho para parecer que as coisas funcionam bem na capital. Isso é verdade? A resposta (para mim) é “não”. Eu realmente acho que as pessoas são muito inocentes para pensar isso ou são oportunistas e querem que as coisas pareçam mais estranhas para atrair leitores. A Coreia do Norte já é bizarra o suficiente sem essas situações e Pyongyang é OK, principalmente porque boa parte da população tem boas posições no partido e estudam nas melhores universidades. Algumas crianças realmente aprendem inglês e as pessoas se vestem bem. Isso não faz o país ser bom (nem de longe), mas achar que é tudo um teatro a céu aberto é muita criatividade.

De volta ao metrô, o preço de uma viagem é ridículo (R$ 0,04) e as duas linhas são muita utilizadas. Chegamos na estação que tem uma cara de antiga com uma tentativa de ser moderna. Exceto pelos trens, estes parece que acabaram de chegar de 1975.

Mapa com as duas linhas do metrô de Pyongyang.
Mapa com as duas linhas do metrô de Pyongyang.

Começamos nossa viagem acompanhados por mais uma música macabra (Acho que pra eles é tipo “Aí se eu te pego”. Ninguém assoviou para acompanhar). Um Kim Il Sung sorridente nos observava ao lado de outra figura do filho quando as luzes se apagaram. Era mais um blackout, o trem começou a andar devagar já que com baterias a velocidade fica reduzida ao mínimo e como a energia não voltou a tempo o trem parou. No meu canto perto da janela eu pensei “Eu estou em um metrô velho, parado entre as estações, espremido como uma sardinha, no dia 25 de dezembro, na Coreia do Norte. Vai ser difícil bater esse natal.”

Metrô iluminado pela luz de emergência enquanto esperávamos a energia voltar.
Metrô iluminado pela luz de emergência enquanto esperávamos a energia voltar.

Apesar de estar cerca de 2º C na rua nosso vagão já estava parecendo verão no Brasil então todos vibraram quando a energia voltou. Bom, todos os turistas. Acho que os coreanos já estão acostumados.

Jornal do dia exposto na estação de metrô.
Jornal do dia exposto na estação de metrô.

Na estação que descemos várias pessoas iam e vinham apressadas e alguns locais liam o jornal do dia que fica exposto bem no centro. Quase tudo no periódico era sobre esportes, mas digo isso me baseando pelas fotos. Poderia muito bem ser “Operação com soldados disfarçados de jogadores de basquete foi um sucesso”.

Fora da estação vimos o arco do triunfo que a guia orgulhosamente nos disse ser maior do que o de Paris. Acredito nela, realmente parece maior.

O Arco do Triunfo da Coreia do Norte.
O Arco do Triunfo da Coreia do Norte.

Partimos para a última visita do dia: O Museu da Guerra. A visita inicia com uma exposição de veículos de guerra capturados pelos norte-coreanos. Alguns blindados, aviões abatidos, helicópteros e o orgulho da Coreia do Norte: o USS Pueblo.

Esse navio (ou corveta, ou bote – pois é, não é minha área) aparentemente destinado à análises ambientais era um navio espião americano capturado em 1968. Você pode entrar no navio andar pelas diferentes áreas e assistir um vídeo sobre a história da captura. Obviamente a história diverge um pouco entre coreanos e americanos, mas é fato que foi um navio espião.

Museu da Guerra
Museu da Guerra.

Saindo do navio nos dirigimos para a área interna do museu, não sem antes receber o aviso de que não poderíamos fotografar o interior. Eu pensei que era até bom, esses museus são entediantes mesmo. Vi que estava errado assim que as portas se abriram: o interior era absurdamente suntuoso. Logo em frente à porta uma estátua enorme de Kim Il Sung sorria e acenava com um fundo cheio de fogos de artifício. As paredes, o chão e o teto eram impecáveis.

Começamos nosso tour ainda boquiabertos e em poucos minutos adivinhem o que aconteceu: mais um blackout! A guia do museu meio constrangida disse que esse dia eles não estavam abertos era uma exceção somente para estrangeiros e que nesse dia estavam fazendo algumas manutenções (aham! Acreditamos). Seguimos caminhando com as lanternas dos celulares iluminando tudo e eu tenho que dizer que fora o luxo do lugar o museu em si deve ser interessante somente para militares e membros do partido.

Ao fundo o hotel Ryugyong de 105 andares que começou a ser construído em 1986 e hoje só tem o exterior concluído.
Ao fundo o hotel Ryugyong de 105 andares que começou a ser construído em 1986 e hoje só tem o exterior concluído.

 

A parte legal, porque foi engraçada, foi a guia (do museu) explicando a guerra da Coreia. Os norte-coreanos dominaram quase todo o território por um breve período (nessa parte ela narrava com entusiasmo as conquistas). O problema é que logo depois eles foram encurralados no extremo norte e ela não poderia ignorar essa parte. Na narrativa ela chamou isso de “Retirada estratégica”. Aparentemente ela realmente acredita nisso, tanto quanto que o blackout é só manutenção elétrica.

Tivemos mais uma “manutenção elétrica” e acabamos terminando o tour um pouco mais cedo. Enquanto começava a nevar fomos para um restaurante para o último jantar (A propósito a culinária coreana é muito interessante, pena que não tem pra todo mundo), depois para um bar com a configuração tradicional: bebidas, sinuca, ping pong e karaokê. Com exceção dos nossos guias somente turistas (o que significa somente o nosso grupo), então nada de interessante para comentar sobre o lugar.

Lendo a história de como Kim Jong Il estava tão concentrado na leitura que durante o dia todo não percebeu uma tempestade na rua. (sério).
Lendo a história de como Kim Jong Il estava tão concentrado na leitura que durante o dia todo não percebeu uma tempestade na rua. (sério).

Na manhã seguinte nosso trem de retorno para a China saiu no horário marcado. Praticamente todos estavam destruídos depois de uma noite de festa na Coréia do Norte (nunca pensei que fosse falar isso) então as 5 horas até os limites do país passaram rápido.

Paramos mais uma vez na fronteira e policiais de todas as patentes entraram no trem, a grande maioria bem humorados e fazendo piadas com nosso guia australiano que já é mais do que conhecido por lá. Mesmo processo de vistoria, um deles pegou minha câmera mas não quis ver as fotos, só queria saber se tinha GPS, eu disse que não e pronto.

Os trens na Coreia do norte tem o mesmo nível dos chineses.
Os trens na Coreia do norte tem o mesmo nível dos chineses.

Tudo certo até que um guarda chegou na nossa cabine e apontou para algo na minha mochila. Não entendi o que ele queria e alguém falou “Ele quer que você toque o ukulele”. Comecei a tocar e o policial observou atento, outros que passavam também paravam com um olhar curioso enquanto eu tocava “Ain’t no Sunshine”. E essa foi minha última atividade nesse país doido, tocar Bill Withers dentro de um trem para um policial norte-coreano.

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